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D’us e os anjos

 

Hashem (D’us/O CRIADOR) é O INFINITO, ou seja, O Não-humano (Não-físico) mas também O Não-espírito

 

 

O judaísmo é unicista, enquanto todas as outras religiões, em particular o cristianismo, são dualistas. Dualista quer dizer uma visão de mundo em que tudo está dividido em 2, em que tudo se divide em duas partes, ambas sempre opostas, contrárias, por exemplo: corpo X alma, deus X diabo, céu X inferno, salvação X condenação, bem X mal, etc.
O judaísmo tem uma visão unicista de todas as coisas, ou seja, não existem duas partes sempre opostas, mas tudo, TUDO MESMO, tem uma única origem, uma única fonte, e estão sob um mesmo controle. Em outras palavras, no judaísmo absolutamente tudo se resume a uma única palavra (um único denominador comum para todas as coisas), D’us.

Daí que, enquanto que no cristianismo o mal é separado do bem, então existem um responsável pelo bem e um responsável pelo mal, ou seja, existem deus e o diabo. E se existem anjos, então existem anjos bons e anjos maus, ou seja, anjos servidores de deus, e anjos rebeldes, que se rebelaram contra deus e não o servem, e ajudam a produzir o mal.

Mas o judaísmo entende que se os anjos existem, D’us os criou, e ELE MESMO então não pode ser um anjo, ainda que um super-anjo, um super-espírito, um espírito todopoderoso. Não, como D’us criou os humanos e então não é humano, D’us também criou os anjos e então também não é anjo (espírito). Sendo assim, todos os anjos (bem como absolutamente tudo) são criações de D’us e são Seus servidores, não havendo meios de conseguirem ou de poderem rebelar-se contra ELE.

Isso fica muito evidente numa benção judaica (do Sidúr) que diz:

“…o D’us Todopoderoso, O grande e santo REI, no céu e na terra. …do mundo mais elevado (ou seja, dos mundos espirituais) ao mais baixo (aqui na terra), TU és D’us. Bendito és TU, Hashém, D’us Todopoderoso, grande REI, …MESTRE de TODAS as criaturas…; TU és …a Vida de todos os mundos.”

E em seguida se diz:

“Bendito és TU, Hashém, nosso D’us, REI do universo, que …cria todas as coisas.”

E:

“REI, que por SI SÓ já é elevado desde antes dos tempos…”

E então (agora tratando mais detalhadamente sobre os anjos) se diz o seguinte:

“Bendito sejas eternamente, …nosso REI …que cria seres sagrados …que cria anjos servidores, e cujos anjos servidores se elevam TODOS nas alturas do universo e proclamam em TEMOR REVERENCIAL, …EM UNÍSSONO, as palavras do D’us vivo e MESTRE do Universo. TODOS ELES são amados, TODOS são puros, TODOS são poderosos, TODOS são sagrados, e TODOS realizam a vontade DE SEU CRIADOR, com temor e reverência. E TODOS ELES abrem “suas bocas” em santidade e pureza, …e abençoam e adoram, glorificam e revereciam, santificam e atribuem SOBERANIA a …D’us Todopoderoso … . TODOS ELES …com amor concedem um ao outro permissão para santificar SEU CRIADOR …com a fala pura e melodia sagrada; TODOS exclamam EM UNÍSSONO com TEMOR e declaram em REVERÊNCIA: Santo, Santo, Santo é Hashém … . E (todos os tipos de anjos que existem (são 3 categorias: Ofanim, Chaiot [lê, RRaiót] e Serafim)) oferecem louvor e dizem: Bendita seja a glória de Hashém do SEU lugar. Eles entoam doces melodias ao abençoado D’us; eles recitam hinos e cantam louvores ao REI, O D’us vivo e eterno …que em SUA bondade renova a cada dia, continuamente, a obra da criação (que naturalmente envolve tudo o que é espiritual: os mundos espirituais, os anjos) … . Bendito és Tu, Hashém”.

Portanto, como está claro nas palavras acima:

· D’us é D’us no céu e na terra, quer dizer, SÓ D’us é D’us seja nos mundos espirituais ou nos mundos físicos (não existe outro deus ou outros deuses, não existe mais do que UM ÚNICO SÓ D’us);

· D’us cria todas as coisas, quer dizer, ELE é O CRIADOR de tudo (inclusive do bem e do mal
(sobre isso, o texto de Isaías 45:6, 7, diz: “Nada há além de MIM; EU, SOMENTE, sou Hashém, e nenhum outro existe. EU formo a luz e crio a escuridão; EU faço a paz e sou EU QUEM cria o mal; EU sou Hashém que tudo faz.”));

· D’us é O MESTRE de todas as criaturas existentes, espirituais e físicas, e ELE PRÓPRIO é A PRÓPRIA VIDA de todas as vidas;

· D’us já existia antes de qualquer coisa, aliás, foi ELE QUEM criou tudo;

· e veja leitor que é afirmado sobre os anjos que “todos eles” (ou seja, sem exceção) são amados, puros e sagrados e que “todos realizam a vontade de” D’us, e que “todos eles” (todos os diferentes tipos de anjos) conjuntamente abençoam, adoram, glorificam, reverenciam, santificam e atribuem soberania a D’us (atribuir soberania, quer dizer, têm D’us como O Seu Único REI), e O louvam dizendo: “Bendita seja a glória de Hashém do SEU lugar”, ou seja, em outras palavras, bendito é D’us da onde ELE está. E onde D’us está? Em tudo (em todos) e em nada. Quer dizer, os próprios anjos cantam que nem sequer eles mesmos sabem o que D’us é. E D’us, “em SUA bondade renova a cada dia, continuamente,” toda a SUA criação, quer dizer, D’us não é apenas O CRIADOR de tudo, mas ELE é O Sustentador, O Mantenedor, de tudo, em outras palavras, D’us não apenas criou tudo lá atrás, ELE está criando todas as coisas constantemente (e isso inclue os próprios anjos (todos os mundos espirituais)).

Por tudo isso fica claro que não existe(m) anjo(s) mau(s), anjo(s) rebelde(s), anjo(s) caído(s). Não existe o diabo (lúcifer). Existe sim no judaísmo e no tanach [lê: tanárr] (a bíblia judaica) o satan, mas como mostra o texto acima, ele é um anjo como outro qualquer, ele não é criador do mal (nem de nada) e ele não é independente de D’us (como anjo algum é).

(E como não existem anjos iníquos, também não existem possessões ou exorcismos (de anjos).)

 

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A Prova da Existência de D’us, Parte 1

B”H

 

D’us existe?

Se D’us existe, qual é a prova de Sua Existência?

Por que D’us não SE “mostra” (SE revela) à Humanidade?

E se D’us existe, O QUE é D’us?

 

SIM, D’us existe. E a prova da Existência de D’us é a existência de Seu Povo. A prova da Existência de D’us é o FATO de que “ELE” MESMO criou e escolheu um povo para SI. E SIM, D’us já SE “mostrou” à Humanidade, só não sabe quem não quer.

A próxima Grande Festa Judaica de 2016 é PÊSSACH, de 22 a 30 de abril (14 a 22 de Nissan).

Saiba o que significa PÊSSACH e quais são as respostas às perguntas acima em:

 

· PÊSSACH – A FESTA DA LIBERDADE

 

· Três níveis de percepção do Divino

 

· As Dez Pragas do Egito

 

· O Milagre da Abertura do Mar

 

· MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D’US E ISRAEL

 

· A Unicidade de D’us

 

Confira também:

Seis textos especialmente selecionados para as questões

 

E para aprender sobre A Fé e O Caminho Espiritual Originais da humanidade, aqueles dados pelo PRÓPRIO D’us a todos os não-judeus, veja:

Palavras do Rebe a toda a humanidade (a todos os não-judeus do mundo)

 

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A Prova da Existência de D’us, Parte 3

A Prova da Existência de D’us, Parte 3

 

Três níveis de percepção do Divino

A Hagadá de Pêssach, recitada durante o Sêder, conta a história de como o povo judeu, que começou como uma família de 70 pessoas, se tornou uma grande nação – o Povo escolhido por D’us para receber SUA Torá.


 

A Hagadá nos conta acerca de eventos que precedem e sucedem o Êxodo – a amarga escravidão sofrida por nossos antepassados, as Dez Pragas que venceram o Faraó, o Êxodo, a divisão do Mar e a outorga da Torá no Monte Sinai, entre outros. Mas, o clímax do processo de constituição dos judeus em uma nação ocorreu não em 15 de Nissan – dia do Êxodo e primeiro dia de Pêssach – mas 50 dias mais tarde, quando D’us SE revelou a todos os Filhos de Israel e lhes deu a Torá – um evento que é comemorado na festa de Shavuót.

As festividades de Pêssach e Shavuót são ligadas de forma indissolúvel. Começando na segunda noite de Pêssach e terminando no dia antes de Shavuót, fazemos a contagem do Ômer – um mandamento de grande significado místico. Durante os 49 dias dessa contagem, somos obrigados a trabalhar sobre nós mesmos e a aumentar nossa espiritualidade para que, em Shavuót, o dia cujo tema é nossa dedicação ao estudo e ao cumprimento da Torá, possamos estar em um nível espiritual mais elevado do que estávamos antes do início de Pêssach. O processo do crescimento espiritual que se inicia em Pêssach culmina, pois, em Shavuót.

A seguir analisaremos três marcos no processo que se iniciou quando Moshé foi enviado por D’us para libertar o Povo Judeu e que culminou com a Revelação Divina no Monte Sinai. Tais marcos são as Dez Pragas que se abateram sobre o Egito, a divisão do Mar de Juncos e o recebimento da Torá.

As Dez Pragas

Quando D’us SE faz ver a Moshé e lhe atribui a missão de voltar ao Egito e libertar o Povo Judeu da escravidão, o profeta responde: “Mas eles não acreditarão em mim, nem ouvirão minha voz, pois dirão: ‘HaVaYaH não apareceu a ti!'” (Êxodo, 4:1). D’us então lhe diz que tome seu cajado e o atire ao chão, e, ao fazê-lo, o cajado se transforma em uma serpente. HaVaYaH ordena que Moshé agarre o rabo da serpente, e ele obedece. A víbora volta a ser o cajado. D’us instrui Moshé a realizar esse milagre diante dos judeus para que “… creiam que HaVaYaH, D’us de teus pais – o D’us de Abrahão, o D’us de Isaac e o D’us de Jacob – apareceu a ti!” (Ibid, 4:5). Mas, caso um sinal não fosse suficiente para fazê-los acreditar, D’us dá a Moshé um segundo milagre, dizendo-lhe que se mesmo realizando os dois o povo não desse atenção a suas palavras: “Tomarás das águas do Nilo e derramarás no seco; e as águas que tomarás do rio tornarse-ão sangue no seco” (Ibid, 4:9).

Essa passagem da Torá deixa claro que D’us, que é Onisciente, sabia que a maneira mais rápida de fazer com que o Povo Judeu acreditasse NELE e em Moshé seria através da realização de milagres. Os judeus – escravizados, desesperados e desesperançados – necessitavam de milagres para acreditar que o D’us de seus antepassados não os tinha renegado. E assim, quando Moshé volta ao Egito, ele e seu irmão Aharon reúnem os anciãos judeus, diante de quem Moshé realiza os milagres, segundo as instruções Divinas. Ao testemunhar os milagres, “o povo acreditou, e compreenderam que HaVaYaH visitara os Filhos de Israel e vira sua aflição, e curvaram-se e se prostraram”. (Ibid, 4:31). Quando Moshé e Aharon, então, invadem o palácio do Faraó e exigem a libertação do Povo Judeu, eles não pedem misericórdia nem ameaçam com algum tipo de rebelião. Em vez disso, realizam milagres, exatamente como haviam feito antes perante os judeus. Pois D’us havia dito a Moshé: “E não vos escutará o Faraó, e porei Minha mão sobre o Egito, e tirarei os Meus exércitos, o Meu povo, os filhos de Israel da terra do Egito, com grandes juízos. E o Egito saberá que EU sou HaVaYaH, ao estender a Minha mão sobre o Egito, e tirarei os Filhos de Israel dentre eles”. (Ibid, 7:4-5). De fato, a confrontação entre o líder egípcio e Aharon e Moshé foi um duelo sobrenatural. Para provar ao Faraó que falavam em Nome de D’us, Aharon atirou o cajado de seu irmão e o transformou em serpente. Mas o Faraó chama seus sábios feiticeiros, que conseguem repetir o feito. O rei egípcio pressupõe que Moshé e Aharon são magos como os seus, e não leva a sério sua alegação de que falam em Nome do Altíssimo. É nesse ponto que o episódio das Dez Pragas se inicia.

A primeira delas transformou o Nilo em sangue. Aharon ergue o cajado e toca o Nilo, tornando suas límpidas águas sangue puro. Mas os feiticeiros egípcios conseguem replicar esse milagre, e o Faraó, assim sendo, imagina que Moshé e Aharon apenas executavam mágicas – prática comum no Egito. Os bruxos egípcios conseguem, pois, replicar a segunda praga, mas não a terceira, e dizem ao Faraó que essa última não era magia, mas “o dedo de D’us”. Mas o Faraó supõe que também a terceira deveria ser algum tipo de bruxaria mais elevada e que, certamente, os dois irmãos deviam ser melhores na magia que seus magos. Somente quando a sexta praga, a sarna, na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico, assola o Egito, seus bruxos ficam totalmente desmoralizados. Pois, apesar de serem profundos conhecedores da magia negra, eles não conseguem proteger nem a si próprios. Tornava-se cada vez mais claro aos egípcios que Moshé não era um simples mago e que as pragas eram verdadeiramente obra de D’us.

À medida que as demais pragas trazem cada vez mais destruição e miséria ao Egito, os emissários do Faraó lhe imploram: “Até quando isto será um impedimento para nós? Envia os homens, e que sirvam HaVaYaH, seu D’us! Ainda não notastes que o Egito está perdido?” (Ibid, 10:7). Mas foi preciso que viesse a décima e última praga – a morte dos primogênitos – para finalmente quebrar o Faraó. Ele tinha sido alertado várias vezes por Moshé para que tivesse a chance de se arrepender, salvando a si próprio e a seu povo. Bem verdade que D’us endurecera o coração do Faraó, dificultando o seu arrependimento, sendo isto uma forma de punição por suas más ações – mas a porta do arrependimento nunca esteve totalmente fechada para ele. Mas, apesar das pragas e do sofrimento que se seguiu, o Faraó se recusou a ver a Mão de D’us. Suas racionalizações, seu desprezo pelos demais e sua teimosia levaram à sua trágica queda e à destruição de seu poderoso reino.

No que tange ao Povo Judeu, eles observaram as Dez Pragas dizimarem o Egito enquanto permaneciam a salvo. Claramente, isso não foi obra do acaso. Com cada praga que atingia o Egito, os judeus se convenciam de que o D’us de seus antepassados não os tinha abandonado. Tinha vindo resgatá-los da escravidão e do genocídio, e interferia abertamente em Seu mundo para punir aqueles que vitimavam o Seu povo. Vinha salvá-los com Sua mão poderosa e Seu braço estendido.

A divisão do Mar

No entanto, nem as Dez Pragas foram suficientes para convencer os egípcios de que foi D’us – e não Moshé e Aharon – quem viera libertar os judeus. Apenas alguns dias após permitir que o Povo Judeu deixasse o Egito, o Faraó e a totalidade de seu exército saem à caça dos fugitivos judeus para trazê-los de volta. Apesar do terror das pragas, os egípcios estavam tão confiantes na vitória que, nessa saída militar, adornam seus cavalos com ornamentos em ouro, prata e pedras preciosas.

O Povo Judeu havia deixado o Egito no dia 15 de Nissan. Em torno do dia 20, o Faraó e seu exército tinham-nos alcançado. E os judeus se vêem presos em uma armadilha: tinham atrás de si o Faraó e seus homens, e à sua frente o Mar de Juncos. Apesar de tudo o que tinham presenciado no Egito, ficaram desesperados e gritam a Moshé: “Foi porque não havia sepulcros no Egito que nos trouxeste para morrer no deserto? O que nos fizeste, ao nos tirar do Egito?” (Ibid, 14: 11). Cheios de temor, os judeus dizem a Moshé: “Deixa-nos e serviremos os egípcios. Pois nos é melhor servir os egípcios do que morrer no deserto!” (Ibid, 14: 12).

Moshé ora a D’us e ELE lhe ordena: “Toma teu cajado e estende tua mão sobre o mar e fende-o, e que os Filhos de Israel entrem pelo meio do mar, em seco”. (Ibid, 14: 16). As águas do Mar de Juncos se abrem, permitindo que os judeus atravessem. Os egípcios, que claramente não haviam aprendido a lição com as Dez Pragas, saem no seu encalço. Quando o exército do Faraó está no meio do mar, D’us começa a castigá-los. Em pânico, os egípcios exclamam: “Fugirei diante de Israel, pois HaVaYaH luta por eles contra o Egito!” (Ibid, 14: 25). Mas sua sorte já fora selada. Seguindo instruções Divinas, Moshé estende sua mão sobre o mar e, na manhã do 21° dia de Nissan, sétimo dia de Pêssach – que, na Terra de Israel, é o último dia da festividade – as águas voltam a se unir e engolem todo o exército do Faraó.

A divisão do Mar foi o ponto culminante do Êxodo, pois mesmo depois de os judeus terem fugido do Egito, o exército desse país permaneceu intacto e a ameaça da volta à escravidão ainda existia. No mar, os judeus foram perseguidos por uma força militar extremamente poderosa, que facilmente os teria vencido e capturado. Segundo o Midrash, havia 30 egípcios para cada judeu. Somente quando o mar se dividiu e engoliu o exército egípcio foi que o êxodo judeu realmente se completou. No 15º dia de Nissan – dia em que os judeus deixaram o Egito, primeiro dia de Pêssach – D’us puniu o Egito com a 10ª praga, mas os judeus deixaram o país como escravos em fuga. No 21º dia de Nissan, após a divisão do Mar, como vimos acima, os judeus se tornaram um povo verdadeiramente liberto. Contudo, há uma razão mais profunda para a divisão do mar ser mais importante do que as Dez Pragas. No Egito, os judeus presenciaram ocorrências sobrenaturais, mas quando o Mar de Juncos se abriu ao meio, todos os judeus adquiriram a condição de profetas. Está escrito no Midrash que mesmo o mais simples dos judeus “viu no Mar de Juncos o que não fora visto nem pelo profeta Ezequiel”, cuja visão da Carruagem Divina é a base do estudo da Cabalá. No Mar de Juncos, os Céus se abriram; todos os judeus, mesmo as crianças, tiveram uma visão do mundo infinito. Por essa razão foi naquele momento, e não antes – nem mesmo durante as pragas que se abateram sobre o Egito – que “o povo temeu HaVaYaH, e creram em HaVaYaH e em Moshé, Seu servo” (Ibid, 14:31).

Antes dessa experiência profética, os judeus haviam testemunhado vários milagres e maravilhas. Mas sua fé em D’us e em Seu emissário não era absoluta. Como fizera o Faraó, eles também poderiam ter racionalizado sobre o que ocorrera no Egito. Talvez as Dez Pragas tivessem sido uma coincidência – muito pouco provável, certo, mas ainda assim uma coincidência. Talvez houvesse alguma explicação natural para elas terem caído sobre os egípcios e não sobre os judeus. Talvez o Faraó e seus feiticeiros estivessem certos: Moshé e Aharon eram apenas super-magos que tinham conseguido manipular a natureza para destruir o Egito, enquanto protegiam os judeus.

Resumindo, pura e simplesmente, as Dez Pragas não eram prova suficiente – nem para os judeus, que entraram em pânico diante do mar, nem para os egípcios, que foram atrás deles.

Mas, com a divisão do mar, tais dúvidas se desvaneceram. Os egípcios por fim reconheceram A Verdade – infelizmente, quando já era tarde. Para os judeus, não se tratou de mais outro milagre, mas do ponto de partida para o objetivo supremo do Êxodo – o recebimento da Torá – que somente poderia ter ocorrido depois dos Filhos de Israel vivenciarem as revelações espirituais da divisão do mar. No sétimo e último dia de Pêssach todos os judeus se tornaram profetas. D’us SE tornou uma realidade tão palpável que, na Canção do Mar, entoada pelo Povo Judeu em louvor a D’us por sua salvação, as crianças proclamaram: “ESTE é meu D’us!”, indicando claramente perceber a Presença Divina.

A experiência profética que ocorreu no Mar de Juncos preparou os judeus para a Revelação Divina que iria ocorrer no Monte Sinai, apenas 50 dias após o Êxodo.

A Revelação Divina no Sinai

Se o povo vivenciou a visão de D’us durante a divisão do Mar, que necessidade haveria da ocorrência da Revelação Divina no Monte Sinai?

São muitas as respostas, mas talvez a principal seja que é extraordinariamente difícil negar um evento testemunhado por milhões de pessoas. Um único indivíduo pode fabricar ou imaginar uma história, e as pessoas podem optar por acreditar ou não em suas palavras. Mas é muito difícil convencer terceiros da veracidade de um evento envolvendo milhões de pessoas se tal evento não ocorreu.

Se não tivesse ocorrido a Revelação Divina no Sinai, seria possível questionar a origem Divina do judaísmo. Poder-se-ia alegar que Moshé foi um grande líder carismático, um mago; mas jamais um verdadeiro profeta de D’us. Poder-se-ia mesmo acusá-lo de ser um impostor ou simplesmente desacreditá-lo, rotulando-o de um esquizofrênico que, no entanto, acreditava ter ouvido o chamado da Voz de D’us. Mas, quando até o mais simples dos judeus se tornou um profeta à beira do Mar de Juncos e, em especial, quando todos eles – (três) milhões de pessoas – ouviram a Palavra de D’us aos pés do Monte Sinai, não mais havia lugar para dúvidas sobre a origem da Torá. Isto explica por que até mesmo os maiores oponentes de Moshé, como seu primo Côrach, não puderam negar ser ele um verdadeiro profeta de D’us. Durante sua longa jornada de 40 anos pelo deserto, muitos judeus falsamente acusaram Moshé de crimes terríveis – nepotismo, roubo, até mesmo de adultério – mas eles nunca ousaram sugerir que ele fosse impostor, charlatão ou alucinado. Pois que eles, afinal, tinham presenciado a Revelação de D’us e quando ELE PRÓPRIO chamou Moshé para ascender ao Monte Sinai para receber a Torá. D’us SE assegurou de que seria impossível alegar que SUA Torá era um relato de ficção. E é por essa razão que mesmo os maiores inimigos do Povo Judeu, mesmo aqueles que quiseram converter todos os judeus, nunca negaram a verdade histórica do judaísmo. (Veja

https://noahidebr.com/2016/09/05/nao-sao-similares-as-historias-de-moises-e-mohammad/   . )

Uma segunda razão para a Revelação Divina no Monte Sinai é que D’us transmitiu ao Povo Judeu os meios de se conectarem a ELE – e isto é feito através da Torá. Se ELE jamais SE tivesse revelado, as pessoas alegariam que a Torá era criação de Moshé. No Monte Sinai, D’us fez o Povo Judeu jurar que iria preservar a Torá: assim sendo, SUA Lei não poderia ser descartada com um código de leis criado pelo homem.

Através da Torá, D’us nos permitiu conectarmo-nos com ELE. Um homem pode considerar-se sábio e espiritualizado. Mas, pelo fato de ser finito, não pode compreender os Desígnios de D’us. O homem requer que D’us lhe aponte o que fazer. No Monte Sinai, D’us nos jogou uma corda que nos permite manter uma conexão com ELE. Quando estudamos a SUA Torá, absorvemos uma centelha de SUA Sabedoria Infinita. Quando realizamos SEUS mandamentos, tornamo-nos instrumentos no cumprimento de SUA Vontade na Terra. E quando estendemos a mão para ajudar os outros, tornamo-nos agentes da bondade e plenitude Divinas no mundo.

Cinquenta dias após deixarem o Egito, os judeus ouviram a Voz de D’us que lhes falava. O MESTRE do Universo proclamou os Dez Mandamentos que são o núcleo dos 613 Mandamentos da Torá. Quem lê a Torá em hebraico sabe que os Dez Mandamentos foram dirigidos na 2ª pessoa do singular. No Monte Sinai, D’us não SE dirigiu ao Povo Judeu como um todo. ELE falou pessoalmente a cada um de nós, pois a alma de cada um de nós esteve presente no Monte Sinai quando D’us SE revelou aos Filhos de Israel. E cada vez que abrimos a Torá, cada vez que a estudamos e praticamos o que nos ensina, estamos revivendo aquele dia tão monumental na história da humanidade.

A percepção do Divino

A Torá é eterna e é uma lição para todo judeu. Com efeito, a raiz da palavra Torá é Hora’á, que literalmente significa “instrução”. Cada vez que estudamos um trecho da Torá, devemos tirar uma lição do mesmo. Quais são, portanto, as lições transmitidas por nosso estudo dos três marcos que vimos acima: as Dez Pragas, a divisão do mar, e a Revelação Divina no Sinai? Estes marcos representam três estágios na percepção que a pessoa tem de sua relação com D’us. O primeiro ocorre quando se vivencia um milagre – um evento muitíssimo improvável: uma cura milagrosa, um socorro financeiro quando mais se necessita, a salvação em momento de extrema dificuldade, uma coincidência extraordinária ou qualquer evento que nos leve a crer que o mundo não funciona por si só. Os milagres servem para nos lembrar que há “Alguém” que rege os acontecimentos e que nos guarda. A isso o judaísmo chama de Divina Providência.

Mas os milagres são apenas o primeiro estágio de conscientização sobre o Divino, pois dificilmente causam uma impressão duradoura. A pessoa pode ficar grata e se sentir inspirada por um milagre, e isto pode fazê-la reconhecer o envolvimento de D’us em sua vida, mas, mais cedo ou mais tarde, poderá vir a acreditar que o milagre foi apenas uma grande coincidência. Os egípcios testemunharam eventos sobrenaturais – as Dez Pragas – mas os racionalizaram como coincidências infelizes ou mágicas usadas para manipular a natureza. No que tange aos judeus, apesar dos milagres que presenciaram, foi somente no Mar de Juncos que eles finalmente “creram em HaVaYaH e em Moshé, SEU servo”.

O segundo estágio da ligação com D’us é simbolizado pelo episódio no Mar de Juncos. Como está escrito no Talmud, nós, judeus, talvez não sejamos todos profetas, mas descendemos dos profetas. Todos nós, em maior ou menor grau, possuímos um pequeno dom para a profecia. Todos tivemos experiências espirituais. Para alguns, pode ser algo simples como receber uma mensagem em um sonho que se torna realidade; para outros, pode ser um sexto sentido aguçado; e para poucos judeus privilegiados, pode ser algo tão dramático como ver almas ou vivenciar uma experiência de quase-morte, em que a pessoa tem uma visão do mundo futuro. Uma experiência genuinamente espiritual causa uma impressão bem mais acentuada do que um milagre, pelo fato de ser muito mais difícil de atribuí-la a uma coincidência. Um milagre é uma improbabilidade estatística, mas uma percepção do mundo espiritual é algo vivenciado. É um evento que transforma a vida de quem a percebe.

Contudo, podemos perguntar-nos: como podemos saber se uma experiência espiritual não é produto da imaginação ou de um alucinógeno? Como diferenciar um profeta de um esquizofrênico? No antigo Israel, quem alegava ter recebido uma mensagem profética era rigorosamente examinado por verdadeiros profetas e sábios para verificar de quem se tratava – profeta ou louco. Uma experiência espiritual tem valor quando serve de ponto de partida para se chegar a um nível mais alto de conscientização do Divino, o que é alcançado através do estudo e da prática de SUA Sabedoria e Vontade.

O fato de uma pessoa realizar milagres não significa nada; afinal, os feiticeiros idólatras egípcios eram magos de grande alcance. E mesmo as vivências espirituais genuínas, por mais fascinantes que sejam, não conseguem mudar o mundo. A pessoa pode meditar e mesmo levitar dias inteiros, mas, com isso, não fará deste um mundo mais Divino. Por outro lado, aquele que se dedica a estudar a Sabedoria Divina e a verdadeiramente cumprir a Vontade Divina, praticando atos de santidade e bondade, faz muito mais do que meramente tocar os Céus: essa pessoa traz os Céus para a Terra. O homem pode ser um milagreiro, profeta ou sábio – pode estar na mais alta das montanhas e compreender tudo o que pode ser compreendido – contudo, ele nada mais é do que um ser humano finito, com os pés no chão. Acima dele está um D’us Infinito, que é desconhecido, impalpável e que não pode ser compreendido. Como pode, então, o homem finito, por maior que seja, alcançar O INFINITO? Sua própria libertação e a única libertação do mundo inteiro se dão quando O Altíssimo chega aqui embaixo e lhe diz, e diz a todos nós: “Estudem isto. Façam aquilo. E através de seu estudo de Minha Sabedoria e seu cumprimento de Minha Vontade vocês estão ligados a MIM”. Quando isto acontece, o homem e D’us se unem a um tal ponto em que não mais existem o finito na Terra e O INFINITO nos Céus. E passa a existir apenas UM.

 

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 4, veja

· As Dez Pragas do Egito

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A Prova da Existência de D’us, Parte 4

A Prova da Existência de D’us, Parte 4

 

As Dez Pragas do Egito

Dez calamidades castigaram o Egito antes da saída dos filhos de Israel desta terra. Através delas, D’us demonstrou a toda humanidade o seu infinito poder.


 

O episódio das Dez Pragas, chamadas em hebraico de Makot Mitzrayim, literalmente Pragas do Egito, relatado e elucidado na Hagadá de Pêssach, consta no Livro do Êxodo. Numa primeira leitura, a aparente razão para tais calamidades foi a obstinada recusa do Faraó em obedecer a ordem de HaVaYaH de libertar Israel. No entanto, se este fosse o único propósito, um único golpe devastador teria sido suficiente. Por que, então, D’us optou por dez calamidades? Porque, através das Dez Pragas, HaVaYaH demonstrou não apenas ser O CRIADOR do Universo, mas SENHOR Único e Absoluto dos Céus e da Terra, JUIZ Supremo e FORÇA Regente da Natureza. No Egito, a contundente revelação da Onipotência Divina fez com que mesmo os mais incrédulos entre os Filhos de Israel fossem obrigados a reconhecer o ilimitado Poder Divino. O principal objetivo das múltiplas pragas foi, portanto, demonstrar a Israel que O D’us de seus ancestrais, D’us de Avraham, Yitzhak e Yaacov, é D’us Único, SENHOR sobre a natureza e sobre as outras nações, e que não há outro além DELE.

As pragas serviram também como o grande castigo pela escravidão, tortura e campanha de genocídio perpetrada pelos egípcios contra o Povo Judeu. Mas a Torá não é um simples compêndio de história judaica e o judaísmo não permite celebrar o sofrimento alheio, ainda que seja o dos inimigos de Israel. As Dez Pragas são relatadas na Torá e na Hagadá não como celebração da Justiça Divina, mas como fonte de lições espirituais.

A Criação e as Dez Pragas

O primeiro dos Dez Mandamentos afirma: “EU sou HaVaYaH, teu D’us, que te tirou do Egito da casa da escravidão”, e não, “Eu sou HaVaYaH, teu D’us, que criou o universo”. Explicam nossos Sábios que, através deste primeiro mandamento, D’us alerta os homens de que ELE não é apenas O CRIADOR, mas está presente e profundamente envolvido em cada detalhe da vida de cada uma de suas criaturas.

O conceito de CRIADOR do Universo é extremamente abstrato e a Criação é um dos grandes segredos do universo. O pouco que se sabe a respeito faz parte da Cabalá e vem sendo transmitido, de geração em geração, para uns poucos escolhidos entre os líderes espirituais do Povo Judeu. Em geral, o assunto é inacessível, mesmo aos mais eruditos. Já o episódio das Dez Pragas pode e deve ser aprendido por todos, inclusive as crianças. A razão é que, ainda mais do que a Criação, as Dez Pragas demonstram a Onipotência Divina em SUAS diferentes manifestações.

E, se durante a Criação, somente O PRÓPRIO CRIADOR estava presente, quando dos acontecimentos no Egito, milhões de judeus e egípcios testemunharam e vivenciaram os milagres realizados por D’us. E para os mais céticos que não aceitam a Torá como a Palavra de D’us, há documentos egípcios e evidências históricas e arqueológicas que atestam as terríveis catástrofes que se abateram sobre o Egito, na época em que ocorreu o Êxodo.

No decorrer das Dez Pragas, HaVaYaH revelou SEU controle absoluto sobre a natureza. Utilizando-SE de pragas naturais, manifestas, no entanto, de forma sobrenatural, demonstrou, que está simultaneamente na natureza e acima desta, pois ELE não é limitado por qualquer elemento de SUA criação. E, não foi simples coincidência o fato de ter optado por castigar o Egito com pragas relacionadas à natureza, pois, para os egípcios, o rio Nilo, os animais e o próprio Faraó eram considerados divindades. HaVaYaH quis demonstrar que nenhuma suposta divindade poderia deter SUA vontade, pois que cada elemento da natureza era SEU servo. D’us queria tirar dos judeus qualquer vestígio de paganismo porventura assimilado em sua longa permanência naquela terra. Além do mais, no Egito, idolatrava-se a matéria – a abundância e a fartura – e, ao transformar o Nilo em sangue, ao destruir as colheitas e os bens egípcios, D’us provou que a Terra inteira LHE pertence e que tudo que o homem possui advém DAQUELE que a tudo criou.

Os castigos que se abateram sobre todo o Egito não atingiram os judeus que lá viviam ou a terra de Goshem onde habitavam. Ao fazer esta distinção entre o opressor e o oprimido, manifestou-se no mundo terreno a Justiça Divina. Foi revelado ao homem que todos seus atos têm consequências, sejam bons ou ruins. As pragas revelaram, também, o poder e eficácia da oração e da ligação com D’us, pois foram as orações de Moshé que puseram fim a cada uma das pestilências.

Por que dez?

As Dez Pragas castigaram o Egito durante praticamente um ano, iniciando-se no fim do mês de Iyar e terminando apenas no dia 15 de Nissan. As primeiras sete pragas constam no Livro do Êxodo, na porção Va’eirá (7:19-9:35), e as últimas três na porção Bô (10:1-12:33).

A sequência de eventos que antecedem as pragas tem início quando o Faraó se recusa a obedecer à ordem Divina transmitida por Moshé e Aharon: “Envia MEU povo para que festejem para MIM no deserto” (5:2). O rei do Egito responde com insolência: “Quem é HaVaYaH para que eu escute SUA voz e deixe partir o Povo de Israel? Não conheço HaVaYaH e também não despacharei Israel” (5:2). E, num gesto desafiador, decide afligir ainda mais os Filhos de Israel. Ordena a seu povo que não mais entreguem aos judeus a palha necessária para a confecção dos tijolos; a partir de então lhes caberia o esforço adicional de buscar a matéria-prima para cumprir suas cotas diárias. O não-cumprimento era punido com tortura física. Seu sofrimento tornara-se ainda mais insuportável e, ao ser questionado por Moshé, D’us responde: “Agora verás o que farei ao Faraó”. Nosso profeta e toda a humanidade iriam testemunhar como  HaVaYaH redimiria o SEU povo.

A pergunta, porém, permanece: Por que, ao invés de atingir os egípcios com um único golpe, D’us optou por um processo gradual e crescente? Por que foram necessárias Dez Pragas? Segundo nossos Sábios, são inúmeros os motivos. O Midrash revela que cada praga foi consequência direta de uma ação específica e equivalente mau-trato, tortura ou crueldade perpetrados pelos egípcios contra os Filhos de Israel. A Justiça Divina determinara que os egípcios deveriam ser punidos “medida por medida” pelas crueldades cometidas contra SEU Povo. Além do mais, a sucessão de pragas e os avisos que as precederam eram necessários para dar ao Faraó a oportunidade e o tempo de reconsiderar suas ações, arrependendo-se da crueldade perpetrada contra os judeus. Somente após o rei do Egito ter “endurecido seu coração” e, repetidamente, se recusado a libertar o povo judeu, as portas do arrependimento finalmente se fecharam. O Rav Maimônides explica que, às vezes, o castigo que D’us impõe a quem cometeu um grave pecado é privá-lo da possibilidade de se arrepender. Este é o significado da expressão usada na Torá, “endurecerei o coração do Faraó”.

As Dez Pragas formam um sistema coerente, de intensidade crescente. A cada recusa do Faraó em atender a ordem Divina de deixar Israel partir, uma nova calamidade se abate sobre o Egito. As primeiras nove são divididas em três séries, de três pragas cada, que se sucedem de acordo com um plano. Cada série aumenta em progressão em direção a um clímax, sendo que a última serve de prelúdio para a décima praga – a Morte dos Primogênitos. Em cada série D’us manifesta SEU poder, mudando o curso das leis da natureza em uma das três esferas da Criação – a terra, a atmosfera e os céus.

Segundo Rabi D. Isaac Abravanel, um dos objetivos das pragas era convencer o Faraó, seu povo e, consequentemente, toda a humanidade de três verdades fundamentais sobre D’us: SUA Existência, SUA Divina Providência – ou seja, que a Mão de D’us está presente em tudo o que acontece na vida dos homens e das nações – e SUA Onipotência. Por isto, a primeira praga de cada grupo é precedida por uma declaração que caracteriza um desses princípios.

A primeira série: sangue, rãs e piolhos

“Assim falou D’us: ‘Nisto saberás que sou HaVaYaH'” (7:17). A afirmação indica que o objetivo da primeira série é estabelecer a inegável existência de um D’us Único, CRIADOR Absoluto e SENHOR do Universo.

A primeira praga atinge o Nilo – considerado pelos egípcios uma divindade. Rashí, o comentarista clássico da Torá, explica que, como havia escassez de chuvas no Egito, a principal fonte de água era este rio que, ao extravasar, irrigava a terra. Por isso os egípcios o consideravam a divindade responsável pelo seu sustento. Quando, seguindo a ordem Divina, Aharon golpeia o Nilo com seu cajado, não só suas águas, mas as de todo o Egito, transformam-se em sangue. A primeira praga veio para demonstrar aos egípcios que sua “divindade, o rio”, não era capaz de deter a Vontade dO CRIADOR. O Midrash explica que, para os judeus, a transformação das águas do Nilo em sangue foi muito significativa, pois compreenderam que D’us estava punindo os egípcios por terem jogado nas águas daquele rio o sangue de seus filhos.

Pela segunda vez o Faraó se recusa a libertar Israel. D’us, então, ordena a Aharon que estenda novamente a mão sobre o Nilo. Rãs, cujo coaxar enchia os ares, emergem do rio e se multiplicam incessantemente, invadindo as casas egípcias. A segunda praga era a prova de que não só o Nilo não conseguira deter a Vontade dO CRIADOR, mas que, ao produzir as rãs, o próprio rio estava a SEU serviço.

Uma terceira praga castiga o Egito, após nova recusa do Faraó em se dobrar perante D’us. Após Aharon ter golpeado o pó com o cajado, seguindo a ordem Divina, a terra de todo o Egito se transforma em piolhos e pequenos insetos, que picam mortalmente os egípcios e seus animais. Foi no decorrer desta terceira praga que os feiticeiros egípcios alertam seu rei que Moshé e Aharon não eram magos nem tampouco eram “as ocorrências” fruto de algum tipo de feitiçaria. Eram enviados de D’us. Segundo o Midrash, foi no final dessa praga que os judeus pararam de trabalhar para os egípcios.

Esta primeira série de pragas foi lançada por Aharon e não por Moshé, porque este tinha um débito de gratidão com as águas do Nilo e com a terra do Egito. Quando Moshé nasceu, sua mãe, para salvá-lo do édito infanticida egípcio, colocou-o numa cesta sobre o rio e as águas o mantiveram vivo, conduzindo-o até Batiá, filha do Faraó, que o resgatou. A terra também o ajudou, pois encobriu o corpo de um algoz egípcio, que Moshé matara para salvar a vida de um judeu. D’us, portanto, incumbiu Aharon de lançar as primeiras três pragas, porque, como ELE PRÓPRIO afirma, “as águas que cuidaram de ti quando foste lançado ao Nilo…e a terra que veio em teu auxílio quando mataste o egípcio…não é justo que por ti sejam amaldiçoadas”.

A segunda série: animais selvagens, peste e sarna

Iniciando o segundo grupo, a quarta praga é precedida pela declaração Divina: “Para que saibas que sou HaVaYaH no meio da terra” (8:18). Por todo o Egito, bandos de animais selvagens, cobras e escorpiões atacam os egípcios, mesmo dentro de seus lares, e destroem tudo que encontram pelo caminho. Mas, como D’us afirmara, “Separarei nesse dia a terra de Goshem”, nenhum destes animais adentrou na terra onde habitavam os judeus. Segundo Rashí, numa clara demonstração de SEU Poder, mesmo os judeus que estavam em outros lugares não foram atacados.

A quinta praga é uma peste fatal que mata os animais domésticos dos egípcios que pastavam nos campos, inclusive os carneiros, que eram considerados um de seus deuses. No entanto, nenhum animal de qualquer judeu foi atingido. Segundo Rabi Alkabetz, a partir daquele momento o sofrimento egípcio se tornou tão intenso, que até o Faraó já estava disposto a ceder. D’us, no entanto, endureceu-lhe o coração, pois queria que os Filhos de Israel vissem a totalidade e abrangência de SUA Força e aprendessem a NELE ter fé.

A sexta praga que atinge os egípcios e seus animais, geralmente chamada de sarna, era na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico. Mesmo os feiticeiros egípcios foram atingidos pela doença.

Esta segunda série de pragas foi uma clara demonstração de que a Providência Divina, a Mão de D’us, está presente em tudo o que acontece. O fato de nenhum judeu ter sido atingido era mais uma prova de que D’us controla tudo que ocorre no mundo, inclusive o comportamento dos animais e as aflições físicas.

O terceiro grupo: granizo, gafanhotos e escuridão

O objetivo desta última série de pragas, anunciado pela declaração “Para que saibas que não há ninguém como EU, em toda a Terra” (9:14), foi demonstrar o infinito poder de D’us. Um outro propósito para a ação Divina é revelado por Moshé, quando informa ao Faraó que, apesar de merecer morrer, sua vida fora poupada para que ele reconhecesse a grandeza de D’us Único e Verdadeiro. “Para que MEU NOME seja anunciado em toda a terra” (9:16), afirma D’us. E para que fosse transmitido, de geração em geração, o relato do que estava ocorrendo no Egito, ou seja, a manifestação explícita de SUA Vontade.

Na sétima, uma violenta tempestade de granizo assola o país. O mundo nunca vira algo igual. Muito menos o Egito, onde, devido à escassez de chuva, este fenômeno meteorológico era desconhecido. Havia um aspecto sobrenatural nesta praga: o granizo vinha acompanhado de fogo. Dois elementos opostos – o fogo e a água – conciliados a fim de mostrar a Onipotência Divina. Antes da sétima praga, D’us alertou os egípcios para procurarem abrigo durante a chuva de granizo, pois, nenhum ser vivo e nenhum vegetal escapariam incólumes. E os que acreditaram nas palavras de Moshé procuraram abrigo, tanto para si como para seu gado.

Na oitava praga, um vento do leste trouxe em seu bojo nuvens de gafanhotos, que escureceram os céus. Os insetos devoraram cada folha verde que, porventura, sobrevivera ao granizo e às pragas anteriores. Invadiram os lares e os campos egípcios e trouxeram ruína total ao país, já praticamente destruído pelas catástrofes anteriores. Pela primeira vez, o Faraó reconhece seus erros, mas ainda permaneceu firme na determinação de não deixar partirem os judeus.

Quando a nona praga se abateu sobre o Egito, uma “escuridão tangível”, impenetrável, tão densa que apagava qualquer luz, envolveu o país por seis dias. Mais uma vez, um fenômeno natural – a escuridão – se manifestou de forma sobrenatural, pois enquanto nos lares egípcios não era possível acender uma luz, nos lares judaicos, havia luz abundante. Os egípcios, tomados de pavor, permaneceram imóveis onde se encontravam. Ao descrever a praga, a Torá menciona “escuridão e trevas”: escuridão no sentido físico e trevas no sentido espiritual. A Torá nos ensina que esta praga refletia o egoísmo prevalente no Egito: “Não via nenhum homem a seu irmão”, pois cada egípcio via somente a si próprio; assim aconteceu durante a praga da escuridão, ninguém se mexeu para socorrer o outro, pois a ajuda mútua não fazia parte de sua visão de mundo.

A décima praga: a morte dos primogênitos egípcios

A décima e última praga é amplamente anunciada por Moshé, que alerta o Faraó que, por volta da meia-noite, D’us, ELE PRÓPRIO, passaria sobre o Egito e golpearia todos os primogênitos – filhos de homens ou de animais.

Era o clímax de todas as anteriores. Seu aspecto de punição é imensamente mais severo do que o das outras, cujo principal objetivo era incutir nos egípcios a fé em D’us. Durante esta praga, D’us, JUIZ Supremo, executou o castigo, “medida por medida”, pelo decreto de extermínio que o Egito lançara contra o Povo Judeu. O Faraó, que emitira a ordem de que todo menino judeu fosse afogado no Nilo, e os egípcios, que a haviam executado, presenciaram a morte de seus primogênitos na noite que antecedeu o Êxodo. À meia-noite, todos os primogênitos egípcios faleceram a um só tempo. (As únicas exceções foram o Faraó, ele próprio um primogênito, e sua filha Batiá, sua primogênita, que salvou Moshé do édito infanticida de seu próprio pai.

Veja

https://noahidebr.com/2018/03/01/os-nomes-de-moises-batia/  .) D’us poupou-lhe a vida porque, às margens do Mar de Juncos, no episódio da abertura do mar, ele ainda iria testemunhar, uma vez mais, o ilimitado poder de D’us. (Em A Prova da Existência de D’us, Parte 5. Link abaixo.)

Naquela fatídica noite nenhum judeu faleceu; D’us postergou até mesmo a morte dos que haviam terminado seu tempo na Terra. Demonstrava assim, mais uma vez, a clara distinção entre os oprimidos e os opressores. Naquela noite, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão da Justiça Divina e tiveram a certeza que D’us MISERICORDIOSO os libertara da escravidão.

Uma dimensão mística das Dez Pragas

A Cabalá revela que a alma humana é composta de dez pontos de energia – dez características – que correspondem aos dez fluxos de Energia Divina, denominados de Sefirot, na Cabalá. Ao ser humano foi dado o livre arbítrio, a opção de utilizar estas características tanto para o bem quanto para o mal.

O antigo Egito – sociedade baseada na idolatria, imoralidade e total falta de respeito pela vida e dignidade humana – representa a corrupção de cada uma das Dez Sefirot. Por este motivo, foram dez as pragas que atingiram o país. As calamidades foram fruto inevitável da crueldade egípcia, consequências espirituais que se manifestaram fisicamente. Por outro lado, ensina a Cabalá, os Dez Mandamentos, outorgados 50 dias após o Êxodo do Egito, no Monte Sinai, são o “antídoto” das Dez Pragas. Pois se as Pragas refletiram a perversão dos dez atributos da alma humana, os Dez Mandamentos refletem sua retificação espiritual.

O relato das Dez Pragas é fonte de inúmeras lições espirituais. A principal é que a corrupção espiritual, a maldade e a injustiça criam entidades espirituais negativas que acabam voltando-se contra seu próprio criador. Em contraponto, os Dez Mandamentos nos revelam que a ligação com D’us, a bondade e a justiça são o caminho para que a alma humana se manifeste em toda a sua harmonia e esplendor, canalizando bênçãos naturais e sobrenaturais para este nosso mundo físico.

 

Bibliografia

· Hagadá de Pêssach, com comentários do Talmud e literatura rabínica, Fundação J. Safra, 2007

· The Call of the Torah – Shemot, Rabbi Elie Munk, Artscroll Mesorah Series.

· The Sepharadic Heritage Haggadah, The Sutton Edition, Rabinos Elie Mansur, David Sutton e Hillel Yarmove, Art Scroll Sepharadic Mesorah Series, 2006

 

 

 

Para A Prova da Existência de D’us, Parte 5, veja

· O Milagre da Abertura do Mar

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A Prova da Existência de D’us, Parte 5

A Prova da Existência de D’us, Parte 5

 

O Milagre da Abertura do Mar

No sétimo dia de sua saída do Egito, o Povo de Israel, perseguido pelo exército egípcio, presenciou um dos mais espetaculares milagres registrados na Torá: a abertura do mar. Até os dias de hoje, o evento é símbolo da Graça Divina e salvação para judeus e não-judeus.


 

Os acontecimentos que antecederam e se seguiram ao Keriat Yam Suf – a abertura do Mar de Juncos – popularmente traduzido como “abertura do Mar Vermelho”, estão sucintamente relatados na Torá, no livro Êxodo. O Talmud, o Midrash, os textos místicos e inúmeros comentários de nossos sábios revelam fatos, explicações e lições marcantes sobre esse milagre.

Conta-nos a Torá que os israelitas, liderados por Moshé, deixaram o Egito no dia 15 de Nissan, iniciando sua viagem em direção ao Monte Sinai. Durante o dia, D’us fazia uso de uma coluna de nuvem para guiar SEU povo. De noite, era uma coluna de fogo que, além de prover luz aos israelitas, direcionava-os de modo a poderem seguir viagem mesmo após o pôr-do-sol.

De repente, D’us ordena a Moisés: “Fala aos Filhos de Israel, e voltem e acampem diante de Pi-Achirot, entre Migdol e o mar, diante de Baal Tzefon, frente deles acampareis, perto do mar” (Êxodo, 14:1-2). As ordens Divinas parecem estranhas. Após três dias de viagem, D’us ordena que os israelitas retrocedam e acampem em frente a Baal Tzefon, o único ídolo egípcio que não havia sido destruído durante as Dez Pragas. Explicam nossos sábios que D’us deu esta ordem para que o Faraó pensasse que os judeus estavam perdidos e confusos e, mais ainda, que a “força” do ídolo egípcio era tamanha que os teria forçado a retroceder.

Apenas três dias após o Êxodo, o Faraó se arrependeu de ter permitido a saída dos israelitas de seu país e decide sair em busca deles, para os capturar e trazer de volta, obviamente como escravos. Faraó, desejando servir de exemplo e inspiração para seus soldados, “arreia sua própria carruagem” e se posiciona à frente das tropas, liderando o exército egípcio na perseguição aos israelitas. Relata a Torá que D’us provocou o arrependimento do Faraó; foi ELE que “endureceu o coração” do tirano egípcio.

Há uma explicação para o fato de D’us ter influenciado o livre arbítrio dos egípcios: tinha sido o Faraó quem ordenara aos egípcios que afogassem os meninos hebreus recém-nascidos nas águas do rio Nilo. A Justiça Divina determinara que, mesmo tendo sofrido as Dez Pragas, os egípcios ainda teriam que pagar “medida por medida” pela crueldade que haviam cometido contra Israel.

A Torá nos relata que os Filhos de Israel saíram do Egito de “cabeça erguida”. O Rabi Ovadia Sforno, famoso comentarista, escreve que foi o sentimento de triunfo de nosso povo o que convenceu o Faraó de que eles seriam presa fácil. Ele acreditava que os israelitas estavam confiantes demais e que a ingenuidade dos ex-escravos facilitaria sua captura. Em seu modo de pensar, apesar de serem um grande contingente, jamais conseguiriam derrotar o poderoso exército egípcio.

Suas tropas alcançam o povo de Israel enquanto este acampava frente ao mar. Os judeus viram marchar em direção a eles um exército forte, unido e extremamente bem-organizado, o mais poderoso da época. Naturalmente, amedrontaram-se: de um lado estava o mar, do outro, um inimigo impiedoso. Não podendo nem avançar nem recuar, só lhes restava uma opção: clamar pela Misericórdia Divina. Mas, ao ver os egípcios se aproximarem cada vez mais, os israelitas supõem que suas preces não estavam sendo atendidas. “Não teria sido melhor viver como escravos no Egito do que morrer aqui, no deserto?” perguntam a Moshé. Em pânico, o povo começa a recriminar seu líder.

O Rabi Chaim Benatar, o Or HaChaim HaKadosh, justifica o temor dos israelitas. Explica que enquanto nosso povo se encontrava encurralado, havia visto não apenas um poderoso inimigo físico, mas [profeticamente] também um adversário espiritual: o anjo da guarda do Egito que se posicionara ao lado do Faraó. Esta visão fez os israelitas pensarem que, quiçá, D’us os tivesse abandonado. Mas, na verdade, explica o Or HaChaim, o anjo servia um propósito positivo: o temor que inspirava levou Israel a se aproximar ainda mais de D’us. Além disso, o Todo Poderoso queria que seus filhos diletos presenciassem a derrota do anjo da guarda egípcio, que seria aniquilado junto com as tropas egípcias. Isto serviria como símbolo de que o Egito não mais aterrorizaria o povo judeu.

Tentando decidir o que fazer, os israelitas se dividem em quatro grupos. Um deles sugere se render ao exército inimigo e retornar, como escravos, ao Egito. O segundo grupo decide se atirar ao mar e morrer. O terceiro se dispõe a lutar até a morte. E o quarto grupo decide rezar. Moshé exorta os filhos de Israel a não terem medo. Em resposta ao pânico generalizado, diz: “Não tenham medo. Fiquem firmes e verão o que HaVaYaH fará para salvá-los, hoje. Vocês podem ver os egípcios hoje, mas não voltarão a vê-los nunca mais. HaVaYaH lutará por vocês e vocês se calarão” (Êxodo, 14:13-14).

É Moisés quem então começa a orar a D’us. E HaVaYaH, surpreendentemente, lhe responde que não era hora de rezar, mas sim de seguir em frente, apesar do mar. HaVaYaH exclama: “Por que clamas a Mim?” E dá a seguinte ordem a Moisés: “Fala aos filhos de Israel que marchem! E quanto a ti, levanta o teu cajado e estende tua mão sobre o mar. Tu dividirás o mar, e os israelitas poderão cruzar sobre ele em terra seca” (Êxodo, 14:15-16). Ensina Rashí que, nessa hora, D’us disse a Moshé: “Por que clamas como se o destino de Israel dependesse de ti? A MIM cabe a responsabilidade de salvar MEU Povo; portanto, manda-os caminhar e EU cuidarei de sua segurança”.

Segundo o Or HaChaim, esta passagem nos leva a uma pergunta fundamental: quando alguém está em perigo, não é a oração sempre a resposta certa? Por que, então, teriam os judeus recebido a ordem de não rezar naquele momento tão crucial? O sábio responde que, assim como os egípcios, também os israelitas haviam adorado ídolos durante sua permanência no Egito. Portanto, perante a Justiça Divina, Israel não tinha méritos suficientes para ser salvo. Por isso, orar por si só não seria o suficiente. Por esse motivo D’us ordenou que o povo andasse em direção ao mar, demonstrando assim sua absoluta confiança NELE. Esta demonstração de fé serviria como mérito para que o mar se abrisse.

D’us também revela a Moshé que ELE iria punir os egípcios por terem atirado os meninos hebreus às águas do Nilo. Disse D’us a Moisés: “EU endurecerei o coração dos egípcios, e eles te seguirão. Assim EU triunfarei sobre o Faraó e todo o seu exército, suas carruagens e cavalaria” (Êxodo, 14:17).

De repente, a coluna de nuvem que andava diante dos filhos de Israel – a Torá se refere a esta como sendo um anjo já que agia como emissário de D’us – desloca-se para trás do acampamento israelita. Todas as outras noites, a coluna era substituída por outra de fogo. Mas naquela noite a nuvem colocou-se entre os israelitas e os egípcios, com um duplo propósito: impediu que os egípcios se beneficiassem da luz do pilar de fogo que iluminava o acampamento de Israel e serviu como escudo para os israelitas, protegendo-os das pedras e flechas lançadas pelos atacantes.

Seguindo a ordem Divina, Moshé estende sua mão sobre o mar… mas as águas não se abrem. D’us esperava que primeiro os israelitas demonstrassem confiança NELE antes de realizar o grande milagre. Foi Nachshon ben Aminadav, posteriormente líder da tribo de Yehudá, que entrou no mar e caminhou até as águas lhe chegarem à altura do pescoço. Acreditando que D’us os salvaria, confiando num milagre que é difícil até de se conceber, ele continuou com fé e bravura a caminhar pelas águas do mar, mesmo quando estava para se afogar. Só então o mar começou a se abrir.

Durante toda a noite, D’us abriu as águas com um poderoso vento leste, transformando o leito do mar em terra seca. Apesar de Moshé ter estendido sua mão sobre o mar, foi D’us, ELE MESMO, QUEM, por meio de um forte vento, dividiu as águas. Rabi Moshe ben Nachman, Nachmânides, grande sábio e místico, explica que D’us realizou o milagre através do vento – um fenômeno da natureza – e não de uma outra forma explicitamente sobrenatural. Nachmânides explica que D’us assim procedeu porque quis que os egípcios ainda tivessem dúvida sobre o que causara a divisão das águas. Estes insistiam em acreditar que o mar fora, coincidentemente, aberto pelo vento, e não pelo D’us de Israel. Isto os fez perseguir os israelitas, entrando atrás deles mar adentro, com seus cavalos e carruagens.

No início da alvorada, D’us lançou relâmpagos e fortes chuvas contra as tropas egípcias. Fez também se desprenderem as rodas de suas carruagens. Só então os egípcios perceberam o que realmente acontecia e gritaram: “Fujamos de Israel! HaVaYaH luta por eles contra o Egito!” Mas era tarde demais. Diz HaVaYaH novamente a Moisés: “Estende tua mão sobre o mar. As águas voltarão sobre os egípcios, cobrindo suas carruagens e cavaleiros” (Êxodo, 14:26). De manhã, quando os israelitas estavam salvos, Moshé estendeu sua mão e as águas voltaram, afogando todos os egípcios que se tinham aventurado pelo mar.

Ao testemunhar um milagre que salvara os oprimidos e punira os opressores, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão do Amor e da Justiça Divina. Os egípcios foram punidos da mesma maneira pela qual tentaram aniquilar o povo judeu – morreram afogados. Na tradição judaica, a morte, ainda que do inimigo, não pode ser comemorada. Portanto, a razão para que os israelitas testemunhassem o fim do exército egípcio foi para ter a certeza de que nenhum egípcio se salvara. Desta forma, futuramente, esse povo não poderia tentar capturar, novamente, o Povo de Israel.

O dia de sua travessia pelo mar, 21 de Nissan, foi quando os israelitas deixaram de ser escravos para sempre. Até então, apesar das Dez Pragas, ainda se sentiam como tal. Após a “abertura do mar”, o povo de Israel finalmente se tornou um povo livre. Estava pronto a seguir em direção ao Sinai onde sua libertação física subiria um outro degrau, atingindo uma dimensão espiritual ímpar.

Ensinam nossos Sábios que durante a “abertura do Mar de Juncos”, os Filhos de Israel presenciaram uma extraordinária Revelação: a natureza da existência de D’us: SUA Onisciência, Onipresença e Onipotência tornaram-se fatos palpáveis, claros como o dia. O Midrash relata que até as crianças cantaram, ESTE é meu D’us e eu O glorifico”. Revela o Talmud que com aquele grandioso acontecimento, todo o Povo de Israel se tornou uma nação de profetas. Mesmo o mais simples dentre eles testemunhou revelações maiores do que as vivenciadas por Ezequiel, o profeta cujas visões se tornaram um dos alicerces do estudo da Cabalá.

A respeito de milagres

Ao descrever a “abertura do Mar de Juncos”, a Torá descreve um único milagre: a divisão das águas. Em contraposição, é no âmbito do Talmud, Midrash, Cabalá e de todos os comentários de nossos sábios que podemos analisar e procurar entender, em pormenores, o milagroso acontecimento. O Midrash nos conta que na “abertura do mar”, D’us realizou não um, mas dez milagres para os Filhos de Israel. Um deles foi o mar se abrir em 12 caminhos, um para cada tribo. Outro milagre foi o leito do mar ter-se secado para que os israelitas pudessem caminhar, mas ter voltado a ser lama quando surgiram os egípcios. O Midrash também relata que uma fonte de água doce e potável surgiu no meio do mar salgado e que árvores de frutos lá cresceram para que os israelitas tivessem com o que se alimentar.

É interessante notar que os israelitas entraram e saíram pela mesma margem ocidental do Mar de Juncos. Ou seja, como afirma o Talmud, a abertura das águas aconteceu em semicírculo. O Povo de Israel não atravessou o mar de um lado para outro, como se costuma pensar. O milagre, portanto, não ocorreu para que eles pudessem chegar até o Monte Sinai; havia outros caminhos. O milagre da “abertura do mar” – da salvação dos israelitas e da morte dos egípcios – ocorreu para que fosse executada a Justiça Divina e para que Israel visse o Amor de D’us por SEU povo. É claro que, além disso, o episódio serve de lição para a humanidade de que D’us controla as forças da natureza, que não passam de joguete diante d’AQUELE que as criou.

A palavra hebraica para milagre, “ness”, pode significar também estandarte ou bandeira. Um estandarte é posto em um lugar alto para que todos o possam ver. O milagre tem um propósito similar, sem ser físico, porém espiritual. Eleva a percepção humana a uma nova dimensão. Faz-nos lembrar que D’us está acima de nós, que é Onisciente, Onipresente e Onipotente e que é ELE QUEM rege todo o universo.

O milagre da “abertura do mar” se realizou através de um acontecimento natural: um poderoso vento leste soprou sobre as águas, durante toda a noite. E, como vimos anteriormente, o exército egípcio estava convencido de que a repartição do mar tinha sido obra do vento – e não do D’us de Israel. De fato, todos os milagres que ocorreram no Egito foram originários da própria natureza; talvez tenha sido por essa razão que os egípcios perseguiram os judeus, mesmo tendo sofrido as Dez Pragas. As legiões do Faraó só se conscientizaram que era D’us QUEM agia quando tudo já estava perdido.

Ao longo da história e ainda nos dias de hoje, há muitos que pensam como os egípcios. Muitos têm tentado descobrir a “verdade” científica por trás da “abertura do mar”. Alguns concordam que as águas realmente se abriram, mas o atribuem a uma coincidência de fenômenos naturais, não a um milagre Divino. São muitas as especulações sobre que fenômenos naturais, próprios da região, poderiam ter provocado o extraordinário acontecimento.

Mas, para todos aqueles que acreditam que a Torá é de autoria Divina, são claras a história e as lições contidas nesse grandioso evento. D’us é Infinito e Onipotente e certamente tem o poder de controlar a natureza. Nada é impossível diante d’ELE. Segundo Maimônides, quando D’us criou o Universo com suas leis e propriedades físicas, criou também a possibilidade de acontecerem eventos extremamente improváveis. É o que chamamos de “milagre”. Segundo os textos místicos, na hora da Criação, D’us impôs à natureza certas pré-condições. Uma destas foi a abertura do Mar de Juncos aos judeus no dia em que estes estivessem fugindo do exército egípcio.

Certa vez, o Baal Shem Tov foi questionado sobre a “abertura do mar”. Quem o abordou dizia acreditar que a repartição das águas era, de fato, um acontecimento raro e improvável, mas não milagroso. O mestre chassídico rebateu com uma resposta que vale para todos aqueles que questionam a origem Divina na abertura do Mar de Juncos. Disse o Baal Shem Tov que o maior dos milagres não foi simplesmente o fato de as águas se abrirem, e sim, o de ter esse fenômeno ocorrido justamente quando os judeus precisavam atravessar aquele mar para se salvar (Torat Shlomoh, vol. 14, pág. 342 ).

Este ensinamento do Baal Shem Tov é um dos princípios básicos da Cabalá – de que todos os eventos no mundo, rotineiros ou extremamente improváveis, do sol que nasce a cada dia à “abertura do Mar de Juncos”, são originários da mesma FONTE SUPREMA e INFINITA.

 

Bibliografia

· The Chumash – The Stone Edition – Rabbi Nosson Scherman – Artscroll Series

· Torá Viva – Anotado por Rabbi Aryeh Kaplan. Tradução: Adolfo Wasserman. Editora Maayanot

· Torá: A Lei de Moisés. Tradução: Rabino Meir Matzliah Melamed. Editora Sêfer.

· The Call of the Torah – Shemos. Rabbi Elie Munk. Artscroll Mesorah Series.

 

 

 

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· MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D’US E ISRAEL

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A Prova da Existência de D’us, Parte 6

A Prova da Existência de D’us, Parte 6

 

MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D’US E ISRAEL

No terceiro mês de saírem os Filhos de Israel da terra do Egito, neste dia chegaram ao deserto do Sinai, e acamparam no deserto, e acampou ali Israel em frente ao monte (Êxodo 19:1-2).


 

Sete semanas após terem sido libertados do jugo do Faraó e da escravidão egípcia, o povo de Israel, liderado por Moshé, que agia sob instruções Divinas, acampa ao pé do Monte Sinai para seu tão esperado encontro com D’us.

Os Filhos de Israel sabiam que o Todo Poderoso prometera a Moshé que no terceiro mês do Êxodo do Egito, ELE SE revelaria a eles na montanha. Mas para merecer tal Revelação, o povo precisava estar espiritualmente preparado, pois, ao sair do Egito, os israelitas encontravam-se num nível muito baixo de espiritualidade. Os judeus vagaram durante sete semanas no deserto para se purificar espiritual e mentalmente. Foi apenas ao chegar ao Monte Sinai, 49 dias após a saída do Egito, que cada um deles atingiu o nível de espiritualidade imprescindível para presenciar a Revelação Divina. A contagem do Ômer vem simbolizar esta ascensão do povo judeu durante estes 49 dias.

Havia, porém, uma outra condição necessária para que os Bnei Israel pudessem receber a Torá: devia reinar entre todo o povo harmonia, paz e união absoluta. Desde a libertação do Egito, havia constantes descontentamentos e desentendimentos entre eles. Mas, ao chegar ao Monte Sinai, os judeus demonstravam fé e confiança absoluta em D’us. Reinava entre Israel a paz mais profunda, como se o povo inteiro fosse um único homem, com uma única voz. Rashí afirma que Israel acampou ao pé do Monte Sinai como um só homem, com um só coração.

A Torá relata: E acampou ali Israel frente ao monte (Êxodo 19:2), indicando-nos que todo o povo formava uma só unidade. Afirmam nossos sábios que foi ao comprovar esta unidade que D’us considerou Israel merecedor de receber SUA Palavra e de se tornar o SEU povo.

O encontro dos Céus com a terra, no Monte Sinai, foi o mais importante evento na história judaica e ocorreu por um único motivo: a outorga da Torá aos Filhos de Israel. Pela primeira e única vez na história da humanidade, D’us SE revela perante todo um povo e o incumbe de uma missão: cumprir SUAS Leis e disseminar ao mundo a SUA Palavra.

A Revelação no Monte Sinai 

A Torá conta que a Revelação de D’us diante do povo judeu foi um evento dramático e estarrecedor, anunciado por relâmpagos e trovões. Toques de Shofár ressoavam enquanto uma nuvem pesada de fumaça cobria o monte. Está no livro Êxodo: O Monte Sinai estava todo em fumaça por causa da Presença que tinha descido sobre ele (19:18).

Revela o Midrash que “quando o Santo, Bendito Seja, ofereceu a Torá no Sinai, ave alguma piou nem vôo levantou; boi algum mugiu; anjo algum ascendeu aos Céus e não se ouviu serafim proclamar louvores a D’us. Absoluto silêncio reinava no universo. Foi então que a Voz adiantou-se, proclamando: ‘EU sou HaVaYaH, teu D’us…’ (Shemot Rabá 29:9).

Como D’us não é físico ou matéria (apesar de que também não é espírito*), o povo judeu não pôde vê-LO, mas apenas ouvir SUA voz enquanto anunciava os Dez Mandamentos. Os místicos revelam que estes correspondem às Dez Proclamações com as quais D’us criou o universo. Portanto, a Revelação do Sinai corresponde a uma nova Criação, um novo mundo regido por Leis Divinas, transmitidas a todo um povo com a missão de cumpri-las e transmiti-las ao restante da humanidade. De fato, a libertação dos judeus do Egito e todos os milagres realizados por D’us durante o Êxodo foram meros prelúdios para a Revelação. Nossos sábios explicam que o propósito da Criação foi alcançado quando Israel – homens, mulheres e crianças – ouviram o Todo Poderoso proclamar os Dez Mandamentos e se comprometeram a seguir a Torá. Ensinam os místicos que não estavam presentes apenas os judeus que foram libertados do Egito, mas sim, todas as almas judias. Mesmo as que ainda estavam por nascer estavam presentes durante a Revelação Divina. O elo entre D’us e o Povo Judeu é eterno, pois foi selado com todas as gerações judaicas subseqüentes.

(* D’us criou o “mundo” espiritual, a “natureza” espiritual, os “seres” espirituais, portanto, assim como “ELE” está além do físico, da matéria, “ELE” também está além do espírito.)

 

Finalmente, após as Leis terem sido anunciadas, todo Israel responde em uníssono e com um único pulsar de coração: Faremos e ouviremos, Naassê Venishmá! (Êxodo 24:7). Com estas palavras, o povo de Israel expressa sua prontidão para servir D’us, por livre escolha e com devoção absoluta. Prometem adotar incondicionalmente as Leis Divinas como base de toda sua existência e selam um pacto eterno com HaVaYaH. Por ter-se comprometido a seguir todos os mandamentos de D’us mesmo antes de entender o significado e propósito de cada um deles, Israel, naquele instante, ascende espiritualmente ao nível dos anjos.
No entanto, a Revelação Divina foi uma experiência muito avassaladora. Após HaVaYaH proclamar os Dez Mandamentos que formam o núcleo dos 613 mandamentos da Torá, o povo pede a Moshé que ele, e não D’us, lhes transmitisse e ensinasse os demais preceitos Divinos: Fala-nos tu e te ouviremos; porém não fale D’us conosco que morreremos (Êxodo, 20:19). E assim D’us chamou Moshé para que ele subisse o Monte Sinai, onde permaneceria 40 dias e 40 noites para d’ELE aprender toda a Torá e seus detalhamentos. E a Moshé caberia transmitir ao povo seus meandros e pormenores.

A formação da Nação Judaica

Após a Revelação Divina no Monte Sinai, as Doze Tribos de Israel se tornam a Nação Judaica, um povo definido por um código de leis morais e espirituais ditadas por D’us. As leis promulgadas por HaVaYaH fundamentam a responsabilidade do homem perante outros homens e SEU CRIADOR. São leis espirituais que uma vez trazidas à Terra, assumiram forma física e cotidiana. Sua moral e ética transcendem o tempo e o espaço e mudam para sempre os caminhos não apenas do povo de Israel, mas de toda humanidade. 

A formação do povo judeu, em consequência da outorga da Torá, difere totalmente de como outros grupos de indivíduos se tornaram uma nação. Teriam todos os franceses, por exemplo, decidido, num determinado dia e ao mesmo tempo, tornar-se franceses? Acreditar na legalidade de ter um rei a governar seu país, a França, ou optar pelos ideais da Revolução Francesa? Certamente que não! Essa transformação foi um processo longo e trabalhoso e, por vezes, sangrento, marcado por lutas internas e externas. Assim como com todas as outras nações, tal processo envolveu habitantes de uma determinada área geográfica, que lá viveram por longo tempo, durante o qual desenvolveram idioma e cultura comuns, calcados em uma experiência histórica compartilhada. Até que acabaram por definir o que consideravam suas fronteiras, desenvolvendo uma entidade política, com um governo e um nome nacional, no caso, França. Suas leis mudaram inúmeras vezes antes e depois de completar o processo de auto-definição como cidadãos franceses. 

No caso do povo de Israel, o embrião desse processo nacional criou corpo quando estavam apartados da terra de seus ancestrais, subjugados pela escravidão e sujeitos às mais adversas condições criadas justamente para anular sua identidade histórica e cultural. E é concluído quando, reunidos aos pés do Monte Sinai, afirmaram a D’us, Naassê Venishmá. Pois, ao prometer seguir os mandamentos da Lei Divina, eles se tornam a Nação Judaica. 

A Torá atesta que nunca antes e nunca mais após aquele evento D’us SE revelaria a outro povo. De fato, todos os outros (fictícios) relatos existentes sobre algum tipo de Revelação Divina referem-se a experiências de um indivíduo ou de um pequeno grupo. Outros códigos de leis, inclusive as de Noé – as Sete Leis de Noé (as Mitsvót Universais) -, nunca foram abertamente declarados por D’us diante de todo um povo (veja

https://noahidebr.com/2016/09/01/os-sete-mandamentos-dos-filhos-de-noach-noe/  ). As leis originadas ou transmitidas unicamente por seres humanos, mesmo as semelhantes aos mandamentos da Torá, estão sujeitas a mudanças. Mas as Leis promulgadas pelo Todo Poderoso são absolutas. Como A FONTE que as origina é Infinita, Imutável e Perfeita, também o são SUAS Leis. Nenhum ser humano pode mudá-las, nem tampouco as mesmas deixam de existir com o passar do tempo.

O rabino Adin Steinsaltz escreve que a importância dos Dez Mandamentos não é tanto o seu conteúdo, mas a sua Origem. Tanto os Mandamentos quanto todos os preceitos da Torá foram promulgados por D’us e é isto o que lhes confere força e significado. Os judeus seguem a Palavra Divina, a Torá, não pelos milagres ocorridos ou outros fenômenos sobrenaturais, mas porque o povo de Israel estava presente no Sinai quando D’us SE pronunciou diante deles e SUA mensagem continua, até hoje, a ser transmitida de pai para filho. A história da sobrevivência do povo judeu é a própria história do processo ininterrupto de transmissão da Torá de uma geração a outra, através dos séculos. 

Desde o recebimento da Lei Divina, os judeus têm um relacionamento específico com D’us que não se limita apenas a religiosidade e espiritualidade. É, na verdade, uma visão que abarca tudo e que nos orienta como viver cada minuto de nossa vida, e esta relação é única. Ser judeu é ser parte de uma nação que tem uma missão frente ao mundo. A identidade nacional judaica foi forjada pela vivência no Monte Sinai, pois lá nos comprometemos com essa missão como indivíduos e como nação. E para cumpri-la, temos a Torá que recebemos. Assim como Abraão declarou, muitas gerações antes… ‘Escolhi viver e, se necessário for, morrer pela realidade Divina’, também seus descendentes, no Sinai, se comprometeram a fazê-lo.

E nós, neste século 21, continuamos a honrar o compromisso de nossos antepassados.

 

Bibliografia:

• The Call of the Torah – An anthology of interpretations and commentaries on the Five Books of Moses, Rabbi Elie Munk, ArtScroll Mesorah Series.


 

 

Os eventos ocorridos há milhares de anos ao pé do Monte Sinai são celebrados a cada Festa de Shavuót. Esta festividade, que é comemorada durante dois dias, começa no sexto dia do mê de Sivan do calendário hebraico. Ocorre 50 dias após o primeiro dia de Pêssach, que marca o êxodo do povo judeu do Egito.

Em Shavuót há o costume de ficar acordado toda a noite estudando a Torá. A Cabalá enfatiza a importância desse ritual chamado de Tikun Leil Shavuót. No dia seguinte, o primeiro dia de Shavuót, em todas as sinagogas ao redor do mundo, os Dez Mandamentos são lidos perante a Congregação.
As sinagogas costumam ser decoradas com flores porque na hora da Revelação, no Monte Sinai, uma montanha seca e árida, explodiu em flores. Alimentos feitos de leite e queijo são característicos desta festa.

 

 

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· A Unicidade de D-us

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A Prova da Existência de D’us, Parte 7

A Prova da Existência de D’us, Parte 7

 

A Unicidade de D’us

“E saberás hoje e considerarás no teu coração, que HaVaYaH, ELE é D’us (O D’us), em cima, nos céus, e embaixo, na terra; não há nada além DELE”. (Deuteronômio, 4: 39).

 

O estudo sobre D’us e SUA Unicidade constitui a matriz do judaísmo. É a essência da Cabalá, que, por sua vez, é a alma da Torá e o portão de entrada a um entendimento mais profundo da lei e filosofia judaica, sua crença e prática.

Nosso propósito, nesta análise, é fornecer uma introdução e um convite a aprofundar o estudo de um tema sem fim e, por vezes, paradoxal, e as idéias abaixo apresentadas baseiam-se na Cabalá de Rabi Itzhak Luria, o Arizal, e nos ensinamentos do Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Baal HaTanya, autor do Tanya.

Adentramos no estudo sobre D’us e SUA Unicidade com a consciência de que somos meras criaturas finitas e falíveis tentando discutir O INFINITO. O pouco que conhecemos acerca de D’us se deve ao fato de sermos, em parte, a SUA Essência. Falar de D’us é falar de um AQUILO indefinível e incompreensível, que está além de qualquer medida ou definição. Comparado a D’us, que transcende a sabedoria e o conhecimento, até o mais sábio dos homens nada mais é do que um tolo. E, portanto, qualquer exemplo, metáfora ou analogia que tente entender D’us é, inevitavelmente, imprecisa. Na melhor das hipóteses, pode-se pretender alcançar um pingo da verdade.

Um corolário disso é o fato de D’us ser absolutamente singular. Nada nem ninguém a ELE se pode comparar. Há uma linha muito bem definida que O distingue de toda a Sua criação. Temos que ter isto sempre presente em nossa mente, pois, como veremos adiante, apesar de ser o mundo todo divino, O CRIADOR e a criação não representam uma unidade. Nos livros sagrados, inclusive na Hagadá de Pêssach, D’us é, às vezes, chamado de HaMakom – O Lugar. A razão para este nome, como ensina o Midrash, é que D’us é O Lugar do mundo, mas o mundo não é o Seu Lugar. Isto significa que a criação reside dentro dO CRIADOR, mas D’us não é definido nem dependente do mundo, em instância alguma. Nem ELE nem o SEU NOME podem ser associados a ser algum, vivo ou inanimado; pois isto equivaleria à idolatria. D’us não pode ser confundido com SEUS Atributos – as Sefirot. ELE não é a Natureza, nem tampouco alguma forma de anjo ou ser humano onipotente. (Na verdade, D’us não é físico, mas também não é espírito.) Até o mais espiritual dos homens, o maior dos sábios, o mais poderoso milagreiro – mesmo Moshé ou o Mashíach, seja este último quem for – são, nas palavras do Tanya, “ingênuos diante de SUA abençoada Presença”. Até mesmo um verdadeiro Tzadík, que tem condições de reverter os decretos divinos, nada mais é do que um instrumento de D’us – um canal através do qual flui a misericórdia e a plenitude Divina.

Judaísmo é monoteísmo puro. É, também, a busca pela Verdade. Para o judeu, a existência e unicidade de D’us não são mera questão de fé – são a base de toda a Realidade. São verdades mais preciosas do que a própria vida.

A contínua criação do mundo

Nós, seres humanos, temos a impressão errônea de que somos criadores. Na verdade, nada criamos; simplesmente moldamos ou transformamos algo em outro algo. Um escultor, por exemplo, não cria sua escultura – ele a modela, com gesso ou outro material. Mesmo um escritor que componha uma história original necessita da matéria física, ou seja, papel e tinta, para gravar seu trabalho. E apenas pelo fato de ter a matéria física, o trabalho do escritor permanece após ser finalizado.

Tudo na criação humana é iniciado a partir de um original. Há uma única exceção, o pensamento. Em nossa mente, temos o poder da imaginação, criando assim coisas ou pessoas ou situações inexistentes anteriormente e sem substância física. As crianças, por exemplo, costumam criar na mente amigos imaginários – chegando, mesmo, a lhes atribuir nomes e com eles “conversar”. Contrastando com outras criações do homem, o pensamento, criado a partir do nada, jamais se torna independente de seu criador. Um conto publicado pode sobreviver a seu autor, mas se um escritor apenas criar o conto em sua imaginação, este deixará de existir no instante em que ele mudar de pensamento. E se ele se esquecer do mesmo, jamais voltando a pensar no assunto, tal história jamais terá existido.

Antes da criação do mundo, não havia nada além de D’us. O CRIADOR não modelou o universo a partir de um original, pré-existente, já que não existia absolutamente nada. Como D’us criou tudo a partir do nada, a criação não pode ser comparada à modelagem de uma estátua ou à escrita de uma conto – que são criados a partir de uma matéria física, mas apenas aos pensamentos da mente humana, criados a partir do nada. Em sua essência, é isto o que é o nosso universo: o conjunto dos pensamentos de D’us.

Falando por metáforas, ELE pensou e tudo se criou. D’us continua a pensar sobre sua criação e esta continua a existir. E como a criação é a mudança do nada em algo, há que haver alguma força que garanta que tudo não volte à forma original de inexistência. Em termos científicos, poder-se-ia dizer que a criação é a força incessante que se opõe à entropia. Para que o mundo continue a existir, D’us precisa continuar com o pensamento no mundo – a dizer, ELE precisa estar constantemente recriando-o, sem parar; de outra forma, tudo reverteria ao nada, onde tudo se originou.

O ato da criação, portanto, não foi um evento único, de uma única vez; é um evento contínuo e incessante. Esta é a razão pela qual todas as manhãs, em nossas orações, louvamos D’us por ser AQUELE “que, em sua bondade, renova dia após dia, continuamente, a obra da criação”. Contudo, como tudo está constantemente sendo criado do nada, o mundo pode, a qualquer momento, reverter ao nada, seu estado inicial. D’us não precisa inundar novamente o mundo para se livrar da humanidade. Basta que ELE pare de pensar no homem. À luz disto, o Talmud ensina que se em um momento qualquer, em algum ponto da Terra, não houver ao menos um judeu estudando a Torá, D’us perderia o interesse na criação e todo o universo súbita e instantaneamente deixaria de existir.

Criação contínua significa que D’us está constantemente pensando em tudo e em todos; nada, portanto, escapando ao SEU escrutínio. A existência de qualquer ser – um micróbio, um ser humano (qualquer humano), um anjo (qualquer anjo – mesmo satan, ou, incluindo satan, ou, principalmente satan) ou uma galáxia – está sob SEU constante domínio. Nada pode existir ou ocorrer sem SUA Presença. Como está escrito na Torá, “pois que ELE é nossa própria vida” (Deuteronômio, 30:20). A criação constante nos ensina que ELE não é apenas QUEM dá a vida, mas ELE é a nossa vida. É fundamental ter isso bem claro para se entender a unicidade de D’us. Há quem acredite que D’us criou o mundo e o afastou de SI; é a teoria filosófica intitulada Deísmo. Outros acreditam que D’us apenas intervém no mundo esporadicamente, através da realização de um milagre. Tais noções – a de que existe um mundo e de que há um D’us e ambos interagem ou não interagem – são falsas. O mundo não é uma realidade absoluta; somente D’us O é. Pois, assim como os pensamentos residem na mente de uma pessoa, o mundo reside em D’us. E é por isso que D’us conhece tudo o que transpira no universo – não porque ELE invade nossa mente e nosso domínio individual – mas porque nós residimos dentro d’ELE. Assim sendo, nada do que pensamos ou fazemos LHE é desconhecido. Afirmar que D’us não percebe ou não SE importa se a pessoa diz a bênção antes de comer ou se a pessoa destina uma doação para caridade, é, no mínimo, uma leviandade.

Na Torá que ELE compôs, D’us descreve SEU ato de criação como um produto de SUA fala, dos Dez Pronunciamentos Divinos. Esta metáfora da fala explica a criação na forma da Revelação Divina. Assim como as palavras de uma pessoa são reveladoras, a “fala” Divina implica que o mundo emanou d’ELE e que a criação realmente aconteceu. Mas tal metáfora tem limitações – como o têm todas as demais usadas para descrever D’us e SEUS Atos – pois quando uma pessoa fala, as palavras emanam de seu íntimo. Há um orador e um discurso. Este, uma vez pronunciado, deixa o domínio do orador, não podendo ser revertido. Mas, em se tratando de D’us, não há nada fora de SEU domínio. Como D’us é Infinito, assim como tudo o que existe dentro d’ELE, SUA fala, contrariamente à do homem, nunca o abandona. Neste sentido, é mais preciso comparar a criação Divina do mundo aos pensamentos de uma pessoa que nunca são exteriorizados. Resumindo, a Criação tem elementos que são comparáveis à fala e ao pensamento do homem. Como a fala, a Criação é uma forma de revelação e expressão; como o pensamento, nunca abandona o domínio de um ser. Isto significa que os Dez Pronunciamentos Divinos resultaram na criação do universo, mas isso não é, de forma alguma, apartado ou independente de D’us.

A Criação, através do ocultamento

A luz de uma vela tem maior significado à noite; mas se torna menos relevante, apesar de não mudar sua luminosidade, em plena luz do dia. E, se de alguma maneira, a vela fosse colocada dentro do sol, sua luz seria imediatamente anulada pela potente luz do sol. A luz de uma vela dentro do sol somente teria relevância se o sol se tornasse escuro. Apenas ocultando a luz do sol, a luz da vela seria perceptível.

Esta analogia ajuda a ilustrar que a Criação, que é finita e reside dentro dO INFINITO, na verdade é anulada dentro de D’us. Esta analogia fica aquém da realidade, pois uma vela, por menor que seja, ainda é uma fração infinitesimal do sol. Comparado com O INFINITO, qualquer número, por maior que seja, é insignificante. Ademais, por definição, O INFINITO não pode ser decomposto em partes, e, portanto, não permite a existência de mais nada. Como discutimos acima, não há espaço fora de D’us; e, como O INFINITO não faz espaço para nada mais, como pode o mundo existir? A Cabalá revela que o mundo foi criado não apenas pela fala Divina, mas pelo Tzimtzum. Comumente traduzido por Divina Constrição, Tzimtzum deve ser entendido como Divino Ocultamento: D’us ocultou SUA Luz Infinita para que o mundo não parecesse estar sendo anulado dentro d’ELE. Nós, portanto, vemos o mundo, mas não vemos D’us.

Referindo-se ao ocultamento de D’us, o Zohar fala de uma “Lâmpada da Escuridão” que oculta a Luz Infinita para fazer crer que a Criação é separada de SEU CRIADOR. Como a presença dO INFINITO e o finito – D’us e o mundo – estão sempre em oposição, sua coexistência é uma contradição. O mundo somente pode existir quando D’us SE esconde. Se a Luz Infinita fosse revelada, instantaneamente Ela consumiria e anularia tudo o que existe.

(Veja

https://noahidebr.com/2016/05/24/o-dus-oculto-o-dus-se-escondendo/  .)

 

A existência do universo envolve dois processos concomitantes: a contínua criação Divina, pois, do contrário, o mundo reverteria ao vazio, ao nada; e o ocultamento de D’us, pois, do contrário, o mundo seria totalmente anulado dentro de SUA Luz Infinita. No entanto, o Tzimtzum apenas explica como podemos perceber o mundo, mas não como o mundo pode coexistir com O INFINITO. O mundo é um produto da Revelação Divina e do Ocultamento Divino. O fator comum a ambos os mecanismos é o Divino, não deixando espaço para nada mais. Como pode um mundo finito ser criado por D’us, oscilando entre a luz e a escuridão? Revelado ou oculto, é tudo ELE. O Baal HaTanya elucida este paradoxo com a seguinte analogia: alguém que fique fora do sol pode diferenciar entre o próprio sol e os raios de luz que emite. Mas, a luz solar dentro do sol é vinculada à sua origem. Dentro do sol, não há distinção entre o sol e a luz solar; há apenas o sol.

De forma similar, como não há nada fora de D’us, o mundo nem pode ser comparado a um raio de sol que, apesar de ser completamente dependente do sol, é reconhecido como uma entidade em si só. Pelo contrário, o universo todo é anulado dentro de D’us assim como o raio de sol o é dentro do sol. Como escreve o Baal HaTanya, este é o significado da verdadeira unicidade de D’us: o fato de que tudo é nada, comparado a ELE, pois tudo é verdadeiramente anulado dentro de SUA Existência.

A unicidade de D’us não significa que não haja outros deuses no mundo. Significa que não há nada além d’ELE. Pois, ainda que nosso mundo realmente exista, assim como a luz existe dentro do sol, esse mundo é completamente anulado dentro de sua ORIGEM: não possui existência independente ou absoluta. O ato de idolatria – quer se adore uma estrela, uma estátua ou um homem qualquer, mesmo um Tzadík – é abandonar tudo pelo nada, pois que apesar de o mundo ser a fala Divina, o mundo não é D’us. Prova disto é que o mundo está constantemente sendo criado do nada e poderia reverter ao vazio do nada – sem efetuar qualquer mudança em D’us. (Veja

https://noahidebr.com/2016/04/30/qual-e-a-prova-logica-que-ha-um-so-dus/  .)

 

Segundo a Cabalá, o ponto de partida da idolatria não é a negação de D’us nem a crença em outros deuses, mas é a assunção de que qualquer coisa seja independente d’ELE. O epítome da idolatria foi personificado pelo Faraó do Egito – o vilão arrogante que afirmou ser um deus, auto-criado. Não é de surpreender que D’us tenha escolhido Moshé, cuja essência é a antítese da idolatria, para enfrentar e vencer o Faraó. Pois Moshé, apesar de ser o maior de todos os profetas, foi também o homem mais humilde que já existiu: ele personificou a verdadeira santidade, que significa a auto-anulação diante do Divino. Pode-se conjeturar que a humildade de Moshé não era simplesmente produto do tipo de pessoa que era, mas também do que ele vivenciou. Chegando tão próximo a D’us, como a nenhum outro ser humano foi dado chegar, ele pôde perceber, melhor do que ninguém, que tudo e todos nada são quando comparados ao CRIADOR. Moshé pergunta, pois, retoricamente: “E que somos nós?” (Êxodo, 16:7). A resposta é que comparados a D’us, nada somos.

O paradoxo da Criação – de como um mundo finito pode existir quando, na verdade, nada existe além de D’us – é transmitida pela seguinte história. Um rabino chassid disse, certa vez, a um filósofo, que “pessoas como você pensam em D’us o tempo todo, enquanto os chassidím apenas pensam em si próprios”. Percebendo um sorriso no rosto do filósofo, o rabino disse, “não o digo como elogio”, explicando a seguir: “Pessoas como você têm certeza de sua própria existência. E, por isso, passam os dias pensando em D’us. ‘Será que ELE existe? E que tipo de D’us é ELE?’ Por outro lado, nós, os chassidím, sabemos que D’us existe. Portanto, passamos o dia pensando se nós próprios existimos. E em como é possível esta nossa existência”.

Corre uma história sobre assunto semelhante acerca de um grande mestre do Chassidismo, Rabi Aharon, de Karlin. Grande líder e erudito, além de poderoso milagreiro, ele foi um dos principais alunos do Maguid de Mezeritch. Certa vez lhe perguntaram o que havia aprendido enquanto estudara em Mezeritch. “Nada”, respondeu. “Nada?”, repetiram, incrédulos. “Nada”, reiterou. “Em Mezeritch, aprendi que nada sou”. Estamos falando de um homem verdadeiramente extraordinário – um Tzadík, um sábio, um fazedor de milagres e maravilhas – cuja sabedoria e conhecimentos apenas o tornavam mais humilde pelo fato de o fazerem constatar que o mundo inteiro é, de fato, anulado diante dO CRIADOR.

No entanto, essa anulação perante D’us não significa que o mundo não exista. Fosse este o caso, não haveria paradoxo algum na Criação. Diferentemente do misticismo oriental, o judaísmo não afirma que o mundo é uma ilusão. O mundo é uma realidade. Se a vida fosse uma ilusão, não haveria diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, uma mitzvá e um pecado. Se, por exemplo, o alimento que ingerimos fosse uma ilusão dos sentidos, que diferença faria comer matzá ou chamêtz, em Pêssach? Portanto, negar a realidade do universo não soluciona o paradoxo da Criação.

O propósito do ocultamento

Buscando algum sentido para o paradoxo da Criação, tomemos emprestada uma analogia do campo da Física. A olho nu, a matéria parece ser sólida e inerte. Mas um objeto como uma pedra é composto do movimento constante de partículas cuja solidez física é questionável. Os elétrons são pontos concentrados de ondas de energia. Ao mencionar isto, quer-se defender o fato de que mesmo dentro do reino do mundo físico, nem tudo é o que parece. Percebemos apenas os sólidos tangíveis porque nossa percepção é limitada. Contudo, justamente esta falta de percepção é o que nos permite funcionar. Não teríamos condições de viver efetivamente se apenas víssemos partículas atômicas.

Esta analogia nos ajuda a entender que pode haver mais de um nível de percepção. O mesmo é válido para a Realidade, como um todo. Por um lado, tudo no universo é produto da fala Divina. Nada há além de D’us; somente ELE existe e o mundo é anulado dentro d’ELE. Por outro, o mundo não é uma ilusão: matzá é matzá; chamêtz é chamêtz e o ser humano é um ser humano. Quem estuda Cabalá e não consegue aceitar este paradoxo ou perde a razão ou perde a fé. Esta é uma das razões porque o estudo do misticismo judaico foi proscrito durante tanto tempo.

A Cabalá aborda o paradoxo da criação através da revelação de que há dois níveis de unicidade: Unicidade Superior, Yichudá Ila’á, que é a perspectiva dO CRIADOR, e a Unicidade Inferior, Yichudá Tata’á, que é a perspectiva da criação. A Superior significa que, sob a perspectiva Divina, o mundo é totalmente anulado dentro d’ELE, assim como a luz do sol o é dentro do sol. A Unicidade Inferior significa que nós vemos um mundo que aparenta ser separado de seu CRIADOR, assim como alguém que fica fora do sol percebe os raios de luz totalmente dependentes do astro-rei, mas não anulados dentro dele.

Dois níveis de Unicidade Divina significam que o relacionamento entre D’us e o universo não é idêntico nas duas direções. D’us é totalmente independente do mundo, ao passo que o mundo é totalmente dependente d’ELE. O CRIADOR tudo vê, mas nenhuma de suas criaturas, nem mesmo os anjos, podem vê-LO diretamente(*). De fato, D’us está muito além da compreensão até mesmo dos seres celestiais mais elevados e sagrados. Isto significa que o ocultamento Divino é a escuridão para nós, não para D’us. A partir de SEU ponto de vista, não há barreira alguma entre ELE e sua criação – ELE nos vê como se estivéssemos dentro d’ELE. Mas, a partir de nosso ponto de vista, parece haver uma linha divisória entre D’us e o mundo.

(* Em outras palavras, nem mesmo os próprios anjos sabem o que D’us é.)

 

Podemos comparar esta situação a um espelho de um só lado. De um deles, é um espelho, enquanto que do outro é totalmente transparente. Nós, que olhamos do lado espelhado, conseguimos ver nossa imagem refletida e, por essa razão, aceitamos a nossa existência como um fato tácito e natural. Mas perante D’us, tudo é como o vidro translúcido, que nada encobre nem oculta, não havendo nenhuma barreira a nos separar d’ELE. Isto explica o fato de que D’us ouve todas as preces. Como o Ocultamento Divino não é real – mas meramente uma falta de percepção de nossa parte – não há separação real entre O CRIADOR e toda a criação. D’us percebe tudo, em todos os níveis, seja o desejo não expresso de uma criança ou o canto de um anjo. ELE está sempre infinitamente próximo, ainda que não O possamos ver.

Na corrente dos mundos espirituais, o nosso é aquele que mais oculta a Presença Divina. Na liturgia judaica e nos livros sagrados repete-se, muito apropriadamente, que D’us “está nos Céus”(*) – não porque ELE não esteja em lugar algum – mas porque nos mundos espirituais D’us é menos oculto. Nós, contudo, vivemos em um mundo que, como diz o Zohar, aparenta ser “um palácio sem governante”. E a razão para tal é que se D’us não SE ocultasse, nosso mundo seria obliterado por SUA Luz Infinita. O Tzimtzum, portanto, é um elemento essencial da criação. Mais do que isso, é o que nos outorga o livre arbítrio. Se sentíssemos a Presença de D’us pairando sobre nós e nos envolvendo, nenhum de nós conseguiria fazer nada de errado e o conceito do livre arbítrio perderia todo o seu significado.

 

(* Que D’us “mora no Céu” ou “está no Céu” é só mais uma metáfora, pois o próprio Céu, o Mundo Espiritual, também foi criado por D’us. Sim, a Existência Espiritual também é Criação de D’us. A única “coisa” que pode “conter” O INFINITO é A SUA Própria INFINITUDE. Veja

https://noahidebr.com/2017/11/19/a-nao-espiritualidade-de-dus/   .)

 

Assim é que está escrito que nenhum ser “há de ME ver e continuar vivo”. Mesmo os grandes Tzadikím e os mais sábios entre nossos sábios não podem ver O DIVINO, diretamente. Nem Moshé, a alma mais elevada que já existiu, pôde ser totalmente anulado diante da Essência Divina. Pois aquele que apenas vê A DIVINDADE perde seu livre arbítrio e não mais pode participar deste mundo.

Diz-se que em seus últimos momentos de vida, o Baal HaTanya, que se abrigava em uma cabana, chamou seu neto e lhe pediu: “O que você vê?” O neto, que viria a ser um grande Rebe, respondeu: “Vejo paredes de madeira e um teto”. O Baal HaTanya respondeu: “Pois eu, não. Neste momento, só vejo A DIVINDADE”. O Maguid de Mezeritch dizia que essa capacidade – de deixar de ver o mundo para apenas enxergar a fala Divina – é investida em um Tzadík três dias antes de seu falecimento. É o sinal de que seus dias neste mundo se esgotaram.

No que tange aos seres humanos, a anulação perante O DIVINO não deve ser interpretada como forma de repúdio ao mundo ou à própria existência. O nível Inferior da Unicidade é a nossa realidade e esta realidade não permite que se trate o mundo, os demais seres ou a própria vida como uma ilusão inconsequente. O nível Inferior de Unicidade foi criado por D’us com um propósito – para que tivéssemos como interagir com ELE. É a perspectiva de ser independente – de não conseguir ver que verdadeiramente nada existe além d’ELE – o que nos dá o livre arbítrio de nos agarrarmos a D’us ou de (ilusoriamente) negá-LO ou de (ilusoriamente) nos rebelarmos contra ELE. Assim sendo, abandonar o mundo a uma mera ilusão é frustrar o magnífico plano da Criação.

O que a anulação diante dO DIVINO requer – e é bem mais do que a maioria das pessoas alcança no curso de sua vida – é o sentimento genuíno de humildade e repúdio a auto-ego. O mais próximo ao “Unio-Mystica” – de total obliteração de si próprio – que há, neste mundo, é o estudo da Torá e o cumprimento de Seus mandamentos – através dos quais a pessoa anula sua própria vontade frente à Vontade Divina. O estudo da Torá, em particular, revela O DIVINO, pois como ensina o Zohar, é na Torá que D’us oculta SUA Luz Infinita.

O mestre chassid, Rabi Nachman de Bratslav, ensinava que o paradoxo da criação não será plenamente entendido até o fim dos dias. Mas, apesar de certamente ser melhor conhecer esse paradoxo do que manter conceitos errôneos sobre D’us e SUA Unicidade, nosso propósito neste trabalho não foi apresentar um enigma e deixá-lo em suspenso. Uma resposta possível é que o mundo é algo que reside entre a não-existência e a existência – e que está no processo de se tornar uma realidade. Temos razão para crer nisto porque o Talmud ensina que, no futuro, D’us SE revelará abertamente, mas a humanidade não será obliterada. O Baal HaTanya explica que a Torá que estudamos e os mandamentos que cumprimos são uma blindagem para este mundo que estamos construindo, para que, um dia, este mundo possa suportar, sem ser consumido, uma Revelação Divina explícita. E, à pergunta de por que o Ocultamento Divino deve chegar ao fim, a resposta é que tudo o que há de errado, no mundo, somente existe porque D’us SE oculta; as pessoas não vêem D’us e costumam usar o livre arbítrio para fazer o mal.

Portanto, por um lado, o mundo não pode ser aperfeiçoado até que a Luz Infinita seja revelada. Mas, por outro, essa Luz tem que permanecer oculta até que o mundo esteja pronto para suportá-la. Isto explica por que a perfeição do mundo é dependente de nossos atos: pois, cada vez que uma pessoa estuda a Torá ou cumpre a Vontade Divina, esta pessoa está transformando este mundo envolto em escuridão em uma Morada de D’us, um lugar onde um dia ELE possa livremente revelar SUA Luz Infinita. O Talmud ensina que quando esse dia vier, a Presença Divina será clara para todos nós. E nosso povo, que viveu por ELE e tanto sofreu por se recusar a negar a SUA Unicidade, proclamará: “ESTE é nosso D’us; esperamos por ELE e ELE nos salvou. Este é HaVaYaH por QUEM ansiamos, exultemos e rejubilemos em SUA salvação” (Isaías, 25:9).

 

Traduzido por Lilia Wachsmann

 

Bibliografia:

Rabi Shneur Zalman de Liadi, Sha’ar ha-Yichud veha-Emunah (Tanya),

Rabi Shneur Zalman de Liadi, Likutei Amarim (Tanya)

Talmud Bavli (Ta’anit)

Rabino Adin (Even Israel) Steinsaltz, Understanding the Tanya –Jossey-Bass

Rabino Adin (Even Israel), Steinsaltz The Sustaining Utterance — Jason Aronson

Rabino J. Immanuel Schochet, Mystical Concepts in Chassidism: An Introduction to Kabbalistic Concepts and Doctrines — Kehot Publ. Society

Rabino Yosef Wineberg, Lessons in Tanya — Merkos L’Inyonei Chinuch

Rabino Aryeh Kaplan, Inner Space -Moznaim Pub Corp

Rabino Shmuel Boteach, Wrestling with the Divine — Jason Aronson

Rabino Adin (Even Israel) Steinsaltz, Opening the Tanya – Jossey-Bass

Rabino Adin (Even Israel) Steinsaltz, Learning from the Tanya – Jossey-Bass

Rabbi Ben Tzion Krasnianski – Lessons in Tanya – http://www.lessonsintanya.com

 

 

Para mais informações sobre O QUE é D’us, sobre a Sua Torá, sobre o Seu Povo – o Povo Judeu -, e sobre O Caminho Espiritual que D’us deu a todos os não-judeus – o Caminho de Bnei Noach -, veja:

MANDAMENTOS DIVINOS PARA TODOS OS DESCENDENTES DE NOÉ

 

Outras matérias sobre a prova da Existência de D’us em

Seis textos especialmente selecionados para as questões

 

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